Guilherme Loureiro, CIO da Monte Bravo
O resultado das eleições 2026 no Brasil foi marcado por uma mudança expressiva na distribuição dos votos. Após liderar o primeiro turno com 47,0% dos votos válidos, contra 45,2% de Lula, Flávio Bolsonaro terminou derrotado no segundo turno por 51,8% a 48,2%. A reversão representou uma mudança relevante em relação ao resultado inicial e às expectativas do mercado.
Em números absolutos, Lula conquistou aproximadamente 10,4 milhões de votos adicionais entre os dois turnos, enquanto Flávio Bolsonaro acrescentou 3,7 milhões. A redução da abstenção em cerca de 1,9 ponto percentual também contribuiu para ampliar o universo de votos.
Siga o canal da Monte Bravo no Youtube
Análise da Monte Bravo sobre o resultado das eleições 2026
Ao longo das semanas que antecederam o segundo turno, o resultado da primeira votação e diferentes levantamentos eleitorais alimentaram expectativas de vitória de Flávio Bolsonaro. Apesar do favoritismo do candidato de oposição – baseado no resultado do primeiro turno e nas pesquisas –, entendíamos que a eleição permanecia apertada e que determinadas estimativas de probabilidade, próximas de 80-85%, não refletiam adequadamente a incerteza de uma disputa competitiva.
Foi justamente essa avaliação de risco e assimetria que orientou nossas decisões de investimento. À medida que o mercado incorporava um cenário eleitoral específico aos preços, identificávamos uma relação menos favorável entre o potencial adicional de valorização e as perdas possíveis em caso de reversão do resultado.
Diante disso, adotamos uma postura mais conservadora nas carteiras recomendadas antes do segundo turno. Reduzimos as exposições a juros prefixados, renda variável brasileira e títulos indexados à inflação. No caso da bolsa, privilegiamos estruturas com opções, buscando preservar parte da participação em movimentos favoráveis com maior controle das perdas potenciais.
Perspectivas econômicas: maior incerteza e riscos domésticos
Com a definição do resultado, o foco dos investidores se desloca da disputa eleitoral para as perspectivas da política econômica a partir de 2027.
O principal ponto de atenção será a trajetória fiscal. A combinação de elevado endividamento público, despesas obrigatórias crescentes e restrições orçamentárias exigirá decisões sobre gastos, receitas e financiamento do setor público. A composição do Congresso Nacional será particularmente relevante como contrapeso ao governo.
Nesse contexto, trabalhamos com cenários que contemplam uma deterioração adicional das condições financeiras domésticas. Uma elevação dos prêmios de risco, acompanhada de depreciação cambial e expectativas de inflação mais pressionadas, poderia limitar o espaço para redução dos juros e intensificar a desaceleração da atividade econômica. Em um cenário adverso, não descartamos uma contração do PIB.
Iremos atualizar ao longo dos próximos dias nossos indicadores de condições financeiras para dimensionar os possíveis efeitos desse ambiente sobre crescimento, inflação e política monetária.
O comportamento do crédito merece atenção especial. O nível de endividamento das famílias e empresas, combinado com juros elevados e enfraquecimento do PIB e do mercado de trabalho, deve provocar uma deterioração das condições de crédito, com aumento da inadimplência.
A definição da equipe econômica, as primeiras medidas do novo mandato e a relação entre Executivo e Congresso serão fundamentais para a formação das expectativas. Também acompanharemos os desdobramentos institucionais. A composição do Supremo Tribunal Federal deverá passar por mudanças ao longo do próximo mandato, com a indicação de 4 ministros pelo presidente, enquanto a relação entre os Poderes continuará sendo uma dimensão relevante da percepção de risco institucional.
Estratégia de alocação: Diversificação internacional, Liquidez e Seletividade
Diante desse ambiente, entendemos que a preservação de liquidez, a diversificação internacional e a gestão criteriosa das exposições domésticas devem orientar a construção dos portfólios.
Nossa principal orientação, neste momento, é ampliar a exposição internacional. A alocação offshore permanece um pilar estrutural de diversificação e ganha importância adicional em um cenário de maior incerteza doméstica. Identificamos oportunidades tanto em títulos de renda fixa internacional quanto em ações globais, mantendo uma abordagem diversificada e atenção aos riscos de duration.
No Brasil, recomendamos preservar níveis relevantes de liquidez em instrumentos pós-fixados de baixo risco de crédito. Além da remuneração corrente, essa posição oferece flexibilidade para aproveitar oportunidades que possam surgir em momentos de volatilidade.
Nos títulos indexados à inflação, continuamos reconhecendo o valor estrutural das taxas reais elevadas. Entretanto, a possibilidade de novas aberturas de juros e de aumento dos prêmios de risco recomenda cautela no curto prazo. Preferimos aguardar condições mais favoráveis de preço e assimetria antes de recompor posições de maior duration.
Nos prefixados e na renda variável doméstica, seguimos seletivos. A evolução das expectativas fiscais, da política monetária e das condições financeiras determinará o momento apropriado para uma eventual reconstrução das exposições.
No crédito privado, nossa visão é de preocupação crescente, e reforçamos a necessidade de extrema cautela. A qualidade dos emissores, a liquidez e a remuneração adequada pelo risco ganham ainda mais peso neste momento. Os ativos high yield são os que mais nos preocupam, já que concentram o maior potencial de deterioração.
Acompanhamos com atenção especial as empresas que chegaram a este ciclo mais alavancadas: com crescimento econômico mais fraco, custo de financiamento elevado e uma trajetória de juros mais incerta, a capacidade de refinanciamento dessas companhias fica mais pressionada.
Considerações finais
A trajetória fiscal, a composição da equipe econômica, a capacidade de coordenação política e a evolução das condições financeiras serão determinantes para a precificação dos ativos.
Nossa estratégia permanece orientada pela análise de cenários, pela disciplina de gestão de risco e pela busca de assimetrias favoráveis. A redução preventiva das exposições domésticas antes do segundo turno ampliou nossa flexibilidade para navegar esse novo ambiente.
Neste momento, privilegiamos diversificação internacional, liquidez e prudência no risco doméstico, preservando capacidade para voltar a assumir exposição quando preços e fundamentos oferecerem uma relação mais favorável entre risco e retorno.
Quer entender como ajustar sua carteira no atual cenário? Fale com seu Financial Advisor Monte Bravo.
Ainda não é cliente? Abra sua conta na Monte Bravo e descubra nossas soluções para você, sua família, seu negócio.