Monte Bravo Experience Belo Horizonte: as pesquisas eleitorais e o futuro do Brasil

23/04/2026 • 8 mins de leitura

A primeira edição de 2026 do Monte Bravo Experience, realizada em Belo Horizonte nesta quinta-feira (23), reuniu especialistas para discutir dois temas cruciais para investidores brasileiros: o cenário político eleitoral do país e as oportunidades de diversificação internacional.

Com participações de Luciano Dias (cientista político), Bruno Yamashita (Avenue) e Fernando Cavallete (Itaú Asset), o evento ofereceu insights valiosos para quem deseja proteger e rentabilizar seu patrimônio.

O Monte Bravo Experience é um evento exclusivo para clientes e prospects selecionados. Promovido desde 2017, ele reúne especialistas e gestores do mercado financeiro para discutir as principais tendências no cenário econômico global e nos investimentos (veja aqui a programação e as datas dos próximos eventos).

Neste artigo, resumimos os principais aprendizados de cada painel e como eles impactam decisões de investimento.

Painel 1 – Eleições 2026: Um Balanço Político

O problema das pesquisas eleitorais no Brasil

Luciano Dias, cientista político da CAC Consultoria, apresentou uma análise crítica sobre a falta de credibilidade das pesquisas eleitorais. Diferentemente de países como Estados Unidos e França, as pesquisas brasileiras têm apresentado erros significativos.

Alguns exemplos apresentados foram:

  • Na eleição presidencial de 2022, as pesquisas subestimaram drasticamente o desempenho de Jair Bolsonaro. Enquanto as pesquisas davam uma vantagem de até 14 pontos para Lula, o resultado real foi uma diferença de apenas 5 pontos.
  • Na eleição para governador de São Paulo, o Datafolha errou a ordem dos candidatos apenas 24 horas antes da votação.
  • Na eleição municipal de São Paulo, o instituto Atlas errou a ordem entre os três principais candidatos e até a passagem para o segundo turno.

Para contextualizar, Dias comparou a realidade brasileira com a de outros países:

“Na França, são quatro institutos de pesquisa, os quatro acertam a eleição. Nos Estados Unidos, são 33 institutos de pesquisa. A diferença dos dois candidatos nas últimas três eleições foi de 2 milhões de votos, dentro da margem de erro.”

Diante dessa falta de confiabilidade, ele se juntou a profissionais do mercado financeiro para financiar suas próprias pesquisas. Em 2022, um consórcio arrecadou R$ 5 milhões para realizar uma pesquisa com metodologia rigorosa e auditoria completa do processo. Os resultados foram significativamente melhores, acertando as eleições presidencial e municipal de São Paulo.

O que isso significa para investidores?

A incerteza nas pesquisas eleitorais tem implicações diretas para o mercado financeiro. No dia seguinte à eleição de 2022, a Bolsa subiu 6% porque o resultado foi mais próximo do que as pesquisas indicavam, gerando dúvida sobre o cenário político que se desenharia depois.

Para investidores, a lição é clara: diversificar fontes de informação e considerar cenários múltiplos ao tomar decisões de investimento.

O peso do voto evangélico

Luciano Dias trouxe uma análise detalhada sobre a influência do eleitorado evangélico nas eleições.

Esse segmento representa aproximadamente 27% do eleitorado. Para colocar em perspectiva, o percentual é comparável ao tamanho do eleitorado de toda a região Nordeste.

Se considerarmos também os católicos conservadores, esse número pode chegar a 30% do eleitorado que toma decisões políticas com base em critérios religiosos.

Mudança radical de 2023-2024

O palestrante apresentou dados que mostram uma transformação importante na opinião do eleitorado evangélico sobre o governo Lula:

  • Final de 2023: 36% de avaliação negativa (péssimo/ruim) do governo entre evangélicos.
  • Final de 2024: 48% de avaliação negativa.

Essa mudança foi atribuída principalmente à questão de Israel e Palestina. Como Dias explicou:

“O evangélico no Brasil é pró-Israel, e o governo, que bom amigo, não apoia Israel. Os evangélicos simplesmente mudaram de posição com o governo Lula.”

A análise de Luciano Dias revelou que essa mudança de opinião não é conjuntural, é estrutural. E a razão é simples: a opinião evangélica é baseada em critérios religiosos e ideológicos, não em políticas governamentais.

Isso significa que mesmo que o governo implemente programas sociais, aumente benefícios ou melhore a economia, a opinião negativa do eleitorado evangélico permanecerá. Programas sociais não mudam convicções religiosas.

Impacto eleitoral: Lula vs. Bolsonaro

Na visão de Luciano Dias, Lula sai prejudicado pelas seguintes razões:

  1. Teto de popularidade baixo: com 27-30% do eleitorado fundamentalmente contra, Lula tem um teto de popularidade mais baixo. Para vencer uma eleição, é necessário atingir 38-40% de aprovação (ótimo/bom). Lula chegou a apenas 30% em 2025.
  2. Voto consolidado: diferentemente de outros grupos que podem mudar de opinião com políticas governamentais, o voto evangélico é consolidado e previsível. Não há estratégia de marketing político que mude isso rapidamente.
  3. Questões ideológicas: o governo Lula tem posições sobre temas que afastam ainda mais os evangélicos, como apoio a pautas LGBTQ+ e posição sobre aborto.

Por outro lado, Bolsonaro e Flávio Bolsonaro são favorecidos:

  • Vantagem clara: nas simulações eleitorais apresentadas por Dias, a margem de Flávio Bolsonaro sobre Lula entre evangélicos é de 40 pontos percentuais.
  • Alinhamento ideológico: Bolsonaro tem histórico de aproximação com líderes evangélicos e apoio a pautas de costumes.
  • Narrativa religiosa: Bolsonaro foi batizado no Rio Jordão, criando uma narrativa de conversão religiosa que ressoa com o eleitorado evangélico.

A estratégia de mudança de opinião

Luciano Dias explicou que é possível mudar a opinião do eleitorado evangélico, mas requer uma estratégia específica. Ele citou o exemplo do presidente George W. Bush nos EUA:

Bush era alcoólatra, tinha um histórico de vida desregrado, mas conseguiu ganhar apoio evangélico porque:

  • Frequentava igrejas regularmente.
  • Se confessava publicamente.
  • Adotou um guia espiritual.
  • Apresentava uma narrativa de redenção religiosa.

O presidente Lula tentou uma abordagem similar visitando uma igreja católica em Barcelona e rezando, mas segundo Dias, isso não é suficiente. A estratégia precisa ser mais profunda e consistente.

Implicações para a eleição de 2026

Os dados apresentados por Luciano Dias sugerem que:

  • Lula tem um problema estrutural com evangélicos que não será resolvido com políticas públicas ou campanhas de marketing.
  • Flávio Bolsonaro tem uma vantagem significativa entre esse grupo, que representa quase 30% do eleitorado.
  • A idade também emergiu como fator: além dos evangélicos, Flávio Bolsonaro tem vantagem entre eleitores mais jovens (25-44 anos), o que é inédito na política brasileira. Historicamente, a política brasileira era decidida por região e religião, não por idade.
  • A matemática é clara: se o eleitorado que vota por critérios religiosos chegar a 33%, Dias afirma que “matematicamente a esquerda nunca mais ganha uma eleição no Brasil”.

Redes sociais e bolhas de comunicação: um novo fator eleitoral

Outra discussão importante levantada por Luciano Dias foi o papel das redes sociais no processo eleitoral. Quando os dados das pesquisas mostraram resultados excepcionais (como Flávio Bolsonaro vencendo Lula em simulações de primeiro turno), uma pergunta natural surgiu:

“Esse número é um efeito de alguma bolha de comunicação, de algum efeito das redes, de alguma flutuação da opinião pública?”

As redes sociais criaram um fenômeno novo na política: as bolhas de comunicação. Diferentemente da mídia tradicional, que tinha gatekeepers (jornalistas e editores), as redes sociais permitem que cada pessoa crie sua própria realidade informativa.

Isso significa que:

  1. Realidades paralelas: apoiadores de Lula e apoiadores de Bolsonaro podem estar vivendo em universos informativos completamente diferentes. Cada um vê notícias, análises e comentários que reforçam sua visão de mundo.
  2. Amplificação de narrativas: algoritmos das redes sociais tendem a amplificar conteúdo que gera engajamento, frequentemente polarizador. Isso cria ciclos de reforço onde narrativas extremas ganham mais visibilidade.
  3. Dificuldade de previsão: para cientistas políticos como Luciano Dias, essa dinâmica cria um desafio: como prever o resultado de uma eleição quando as pessoas estão expostas a informações tão diferentes?

Luciano Dias deixou claro que há incerteza sobre os números que aparecem nas pesquisas. Quando as pesquisas mostram Flávio Bolsonaro vencendo Lula entre evangélicos por 40 pontos, isso pode refletir:

  • Mudança estrutural? Um realinhamento político permanente baseado em fatores religiosos e ideológicos?
  • Bolha de comunicação? Um efeito temporário amplificado pelas redes sociais que pode desaparecer quando a campanha oficial começar?

As redes sociais também amplificam a polarização política. Em vez de um espectro político contínuo, a política brasileira está cada vez mais dividida em dois polos irreconciliáveis.

Isso tem implicações importantes:

  1. Voto mais previsível: Em um cenário polarizado, as pessoas votam menos por políticas específicas e mais por identidade. Isso torna o voto mais previsível, mas também mais rígido.
  2. Menos voto flutuante: Há menos espaço para persuasão no meio da campanha. As redes sociais já definiram as posições das pessoas antes da campanha oficial começar.
  3. Importância da mobilização: Em vez de persuasão, o que importa é mobilização. Quem conseguir mobilizar melhor sua base nas redes sociais tem vantagem.

A Questão para investidores

Para investidores, entender o papel das redes sociais e as bolhas de comunicação é crucial porque afeta a previsibilidade do resultado eleitoral:

  • Se as bolhas de comunicação forem o fator dominante, então os resultados podem ser mais voláteis e imprevisíveis.
  • Se os fatores estruturais (como religião) forem dominantes, então os resultados são mais previsíveis.

Luciano Dias deixou claro que essa é uma questão em aberto na análise política brasileira. Não sabemos ainda se as redes sociais estão criando realidades paralelas que desaparecerão quando a campanha oficial começar, ou se elas estão refletindo mudanças reais e duradouras no eleitorado.

Painel 2 – Alocação Global: Como Equilibrar Brasil e Exterior

Bruno Yamashita e Fernando Cavallete trouxeram perspectivas complementares sobre a importância de investir além das fronteiras brasileiras. Os números são convincentes:

A bolsa brasileira representa menos de 2% da bolsa global. Isso significa que investidores que mantêm 100% de seu patrimônio em ativos brasileiros estão ignorando 98% das oportunidades de investimento disponíveis no mundo.

Para colocar em perspectiva ainda maior, a bolsa americana concentra 60% da riqueza global.

Essa concentração de riqueza e oportunidades no mercado americano não é acidental. É resultado de décadas de inovação, empreendedorismo e desenvolvimento econômico.

Segundo os especialistas, o momento atual é particularmente favorável para começar a investir no exterior:

  1. Valorização recente do real: o dólar perdeu um pouco de força em relação à moeda brasileira, o que abre uma janela interessante para remessa de recursos.
  2. Brasil “à prova de balas”: em meio a conflitos geopolíticos globais, o Brasil é visto por investidores estrangeiros como um refúgio seguro. Somos exportadores de petróleo, temos energia barata e juros altos. Isso fortalece o real e atrai capital externo. No momento atual, significa um dólar mais barato.
  3. Mercado americano resiliente: a economia americana continua sendo a mais dinâmica do mundo, liderada por empresas inovadoras que moldam nosso dia a dia. O avanço tecnológico e os ganhos de produtividade gerados por essa inovação devem continuar impulsionando os lucros das companhias e, consequentemente, a boa performance das ações americanas.

Por onde começar a investir?

Para quem está iniciando a jornada de investimento internacional, os especialistas recomendam começar pelo “básico bem feito”:

1. Títulos do Tesouro Americano (Treasuries)

Os títulos americanos são considerados os ativos mais seguros e líquidos do mundo. Atualmente, estão oferecendo taxas atrativas:

  • Taxa atual: aproximadamente 4,30% a 4,50% ao ano.
  • Contexto histórico: durante a pandemia, chegaram a 0% para estimular a economia.
  • Comparação: ainda estão em patamares historicamente altos, oferecendo bom ponto de entrada.

2. Índice S&P 500

O S&P 500, que reúne as ações da 500 maiores empresas americanas, oferece diversificação instantânea. Embora esteja em patamares elevados de preço, as métricas de avaliação (como price-to-earnings) ainda indicam oportunidades.

A metáfora da piscina olímpica

Fernando Cavallete usou uma metáfora criativa para explicar a magnitude do mercado americano:

“Imagine ter uma piscina olímpica, pegar um balde de água e jogar nos mercados emergentes (a piscina são os títulos do Tesouro Americano). Só isso já fez a nossa bolsa ir para quase 200 mil pontos.”

Isso ilustra como o mercado americano é tão grande que pequenos movimentos de capital têm impacto global significativo.

Proteção patrimonial e sucessão

Além de rentabilidade, a alocação offshore oferece benefícios importantes para planejamento sucessório e proteção patrimonial. Existem veículos jurídicos e financeiros no exterior que oferecem proteção superior à disponível no mercado doméstico.

Diversificação além do básico

Para investidores mais sofisticados, existem oportunidades adicionais:

  • Private Equity: investimentos em empresas não listadas em bolsa
  • REITs: fundos imobiliários americanos
  • Ações das maiores empresas do mundo: tecnologia, saúde, energia renovável
  • Mercados emergentes: China, Índia, mercados asiáticos
  • Ativos reais: infraestrutura, energia, imóveis

Lições de longo prazo: o exemplo da Apple

Fernando Cavallete trouxe uma perspectiva valiosa sobre a importância de manter o foco no longo prazo:

A Apple lançou o iPhone em 2008, durante uma das maiores crises financeiras da história. Naquele momento, muitos teriam considerado a compra de ações da empresa uma loucura. Mas nos 16 anos seguintes, a empresa se transformou em uma das mais valiosas do mundo.

A lição: não se deixe abalar pelos ruídos de curto prazo. Crises frequentemente criam as melhores oportunidades para quem tem visão de longo prazo.

O cenário brasileiro: juros e inflação

Cavallete também abordou o cenário doméstico.

Antes das recentes tensões no Oriente Médio, havia uma expectativa clara de cortes na taxa Selic:

  • Taxa terminal esperada: entre 12% e 12,25%.
  • Ciclo de corte: de 15% para 12%, redução de 3 pontos percentuais.
  • Inflação: controlada, abaixo de 4%.
  • Expectativas bem ancoradas.

O conflito no Oriente Médio alterou esse panorama:

  • Choque nos preços de energia: aproximadamente 20% da oferta global passa pelo Estreito de Ormuz.
  • Impacto na inflação: pressão para cima em países importadores de petróleo.
  • Resposta do Banco Central: redução no ritmo de cortes de juros, de 0,50 para 0,25 ponto percentual.
  • Expectativa revisada: taxa terminal mais alta do que inicialmente projetado.

Em resumo, investidores brasileiros enfrentam um ambiente complexo, mas repleto de oportunidades.

O Brasil sempre oferecerá especulações e incertezas. Mas com informação de qualidade, diversificação estratégica e visão de longo prazo, é possível navegar esse cenário com confiança.

Sobre os especialistas

Luciano Dias: Cientista político da CAC Consultoria, com quase 30 anos de experiência em análise política e previsão eleitoral. Trabalhou em Brasília e é especialista em entender os nuances do cenário político brasileiro.

Bruno Yamashita: coordenador de Alocação e Inteligência da Avenue, especialista em diversificação de portfólios e alocação de ativos em mercados globais.

Fernando Cavallete: head Global de Portfólio na Itaú Asset, com expertise em construção de carteiras internacionais e gestão de risco em cenários de volatilidade geopolítica.

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