Especial: carry menor com corte da Selic e volatilidade por eleição podem abalar real em 2026

21/11/2025 • 4 mins de leitura

Após uma onda de apreciação na primeira quinzena de novembro, quando o dólar rompeu o piso de R$ 5,30 e atingiu os menores níveis desde junho de 2024, o real deve enfrentar mais dificuldades daqui para frente. Além do impacto do aumento sazonal de remessas ao exterior em dezembro, a moeda brasileira pode perder parte de seu apelo em 2026, em razão de um ciclo de corte de juros mais expressivo pelo Banco Central e do aumento da volatilidade com a corrida presidencial.

Analistas ouvidos pela Broadcast afirmam que, além da fraqueza global da moeda americana, a apreciação de mais de 13% do real neste ano está relacionada à combinação da taxa Selic elevada, que favorece as operações de carry trade, com a baixa oscilação da taxa de câmbio. A moeda brasileira é a “campeã mundial” entre as principais divisas quando se observa o carry ponderado pela volatilidade – ou seja, apresenta a melhor relação entre risco e retorno.

O gestor de portfólio Marcelo Bacelar, da Azimut Brazil Wealth Management, ressalta que o nível atual dos juros locais torna “muito caro” apostar contra o real, o que limita o potencial de alta da moeda americana no mercado doméstico. Quem carrega posições “compradas” em dólar abre mão da remuneração oferecida pela taxa Selic.

“Com os juros elevados e a dinâmica externa muito favorável para emergentes e os juros altos, os fundamentos locais, como os riscos fiscais e a piora da conta corrente, foram deixados de lado”, afirma Bacelar, que já considerava “muito arriscado” apostar na apreciação do real quando a taxa de câmbio estava entre R$ 5,45 e R$ 5,50. “Ainda é preciso ver qual será a velocidade e a intensidade com que o BC vai cortar os juros, mas o início do ciclo de queda da Selic vai diminuir o carry enquanto a eleição presidencial vai adicionar volatilidade à moeda”.

Para o analista de câmbio Michael Pfister, do Commerzbank, a perspectiva de manutenção de um dólar globalmente fraco no ano que vem, em razão de preocupações com a independência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), não será suficiente para impedir uma depreciação do real, embora possa mitigar as pressões sobre a moeda brasileira ao longo do primeiro semestre de 2026.

A perspectiva do analista é que a taxa de câmbio atinja o pico em torno de R$ 5,70 no segundo semestre do próximo ano, período em que espera uma estabilidade da moeda americana no exterior. Pfister vê um ciclo de corte da taxa Selic entre 300 e 400 pontos-base em 2026, acima do embutido atualmente na curva de juros doméstica.

O analista ressalta que os riscos políticos também podem abalar o real ao longo do próximo ano. Há temores de expansão dos gastos públicos e de deterioração do horizonte fiscal diante de eventuais promessas de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele lembra que, recentemente, foi ventilada a possibilidade de adoção de tarifa zero nos ônibus públicos.

“É claro que os riscos políticos podem não se materializar, mas isso não parece provável. Lula teve três anos para colocar as finanças em ordem, e suas declarações públicas nesse período sugerem que ele prefere uma política fiscal mais expansionista, apesar de todas as preocupações do mercado”, afirma Pfister. “Se, nos próximos anos, a política fiscal mostrar poucos sinais de melhora, o real provavelmente sofrerá.”

BC tira volatilidade

Para o gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, o eventual início de um ciclo de cortes de juros em janeiro ou março pode até favorecer o real, ao mitigar o risco de uma desaceleração aguda da atividade e reduzir as pressões sobre o endividamento público. Ele avalia que, com a condução cautelosa e responsável da política monetária, o Banco Central adquiriu credibilidade suficiente para promover uma redução da taxa de juros sem provocar uma piora das expectativas inflacionárias.

“A taxa de juros é muito elevada. O BC pode cortar a Selic e diminuir a percepção de risco sobre a economia brasileira. Pode ser que o retorno ajustado pelo risco fique até melhor”, afirma Aun. “O BC atual tira volatilidade dos ativos, em vez de aumentá-la. O problema seria o BC cortar os juros sem ter condições econômicas. Isso traria um risco maior. Não é o que vemos agora”.

Para Aun, as ameaças ao real vêm de uma eventual onda de aversão ao risco que aumente a volatilidade da moeda. Por ora, as atenções estão voltadas ao ambiente externo, com investidores atentos aos indicadores da economia dos EUA e aos sinais de dirigentes do Fed, na tentativa de avaliar a possível extensão do afrouxamento monetário no país. Contudo, o foco pode mudar ao longo dos próximos meses para o comportamento do governo em relação às contas públicas. “Isso pode aumentar a volatilidade, piorar o risco e atingir a moeda”, afirma o gestor.

A pressão das remessas

O economista-chefe da corretora Monte Bravo, Luciano Costa, afirma que o real pode experimentar alguma apreciação adicional caso haja um quadro externo benigno para ativos de risco, mas tende a se enfraquecer até o fim do ano com o aumento das remessas de lucros e dividendos ao exterior.

“Continuo vendo o dólar mais perto de R$ 5,60 no fim do ano, com a sazonalidade negativa do fluxo, ainda mais após a aprovação da reforma do Imposto de Renda, que prevê a taxação de dividendos. As empresas podem acelerar as remessas para evitar a tributação”, diz Costa, em referência à taxa de 10% sobre lucros e dividendos enviados ao exterior a partir de 2026, embora proventos apurados em 2025 continuem isentos, mesmo se distribuídos em 2026, 2027 e 2028.

Costa avalia, contudo, que o ambiente ainda deve permanecer construtivo nos mercados locais em geral até pelo menos agosto de 2026, quando a corrida eleitoral e a percepção sobre a dinâmica da dívida pública a partir de 2027 devem passar a dominar as atenções dos investidores.

“À medida que o Brasil se aproxima das eleições presidenciais de 2026, o debate sobre o futuro da política fiscal ganhará centralidade na determinação dos preços dos ativos”, afirma Costa. “A eleição de 2026 será decisiva. Mais do que nomes, o que estará em jogo é a capacidade do próximo governo de enfrentar o desafio de uma dívida pública explosiva com legitimidade.”

Reportagem produzida por Antonio Perez, para Broadcast.