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16/02/2024 • 3 mins de leitura
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Trade eleitoral: Expectativa por disputa mais acirrada nas eleições movimenta o mercado acionário brasileiro e mexe com as recomendações de analistas para empresas estatais
Depois de um agosto turbulento, o Ibovespa começou setembro em trajetória de recuperação. No mês anterior, o principal índice da Bolsa de Valores brasileira havia acumulado onze sessões consecutivas de queda e visto R$ 18 bilhões em capital estrangeiro deixarem a B3. Agora, o movimento se inverteu: o índice opera próximo aos 185 mil pontos, com alta de 4% em setembro.
Grande parte da recuperação recente do Ibovespa, segundo analistas, pode ser explicada pela expectativa de uma eleição mais disputada. As últimas pesquisas mostram Luiz Inácio Lula da Silva (PL) e Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados em um eventual segundo turno.
Junto a isso, os estrangeiros, que haviam saído da B3 em agosto, têm retornado ao mercado financeiro doméstico. Até o dia 16, ingressaram na Bolsa local com R$ 6,287 bilhões no acumulado do mês.
No início de setembro, o Bank of America (BofA) elevou a recomendação do Brasil para overweight (equivalente à compra), mais de um ano depois de rebaixar a posição para marketweight (equivalente à neutra). O banco também revisou a sua projeção para a Selic para 11,25% no fim de 2027, contra 12,75% da estimativa anterior.
Para o BofA, a desaceleração da atividade e a redução dos riscos inflacionários podem permitir um ciclo de corte de juros mais profundo do que o esperado pelo mercado. E, com uma política monetária mais frouxa, os preços das ações brasileiras poderão subir, compensando potenciais revisões negativas de lucro, desaceleração de demanda e até incertezas eleitorais.
Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP, concorda que a desaceleração da economia e, consequentemente, a expectativa de novos cortes de juros têm favorecido o Ibovespa. “Mas vale um adendo importante: essa desaceleração precisa ser cautelosa e não precificar um cenário de recessão, o que seria negativo para a renda variável”, diz.
Do lado externo, um fator também ajudou: o Tesouro dos Estados Unidos anunciou em agosto o aumento das recompras dos títulos públicos norte-americanos, os Treasuries, de prazo mais longo. O teto da operação foi elevado de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões nos vencimentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos.
Como explicamos aqui, ao ampliar a liquidez disponível no mercado financeiro, o Tesouro dos Estados Unidos favorece o ingresso de fluxo estrangeiro na Bolsa brasileira e a valorização do real.
Embora esse conjunto de fatores – eleições, volta do fluxo estrangeiro e anúncio do Tesouro norte-americano – tenham contribuído para a alta do Ibovespa nos últimos pregões, o caminho do índice para o patamar de 200 mil pontos deve ser marcado por volatilidade. A principal referência da B3 chegou perto de alcançar essa marca em abril, ao superar os 199 mil pontos, mas não seguiu em frente.
Segundo Araújo, os principais gatilhos para uma reversão da recente alta do Ibovespa estão relacionados ao cenário eleitoral, como mudanças nas pesquisas de intenção de voto e o resultado do primeiro turno das eleições, além de eventuais escândalos de corrupção, diante do noticiário envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o caso Master.
“Na medida em que a possibilidade de alternância de governo diminui ou aumenta, os investidores irão rever suas posições relacionadas ao evento e isso traz volatilidade para ambos os lados”, afirma.
Para Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, da mesma maneira que a mudança nas pesquisas favoreceu os ativos brasileiros, uma inversão desse cenário pode provocar uma correção rápida. “Parte da valorização recente representa uma mudança de expectativas, e não uma melhora já materializada nos resultados das empresas”, diz.
O cenário eleitoral já tem mexido com as recomendações de corretoras. Em sua carteira recomendada para setembro, a Ativa Investimentos incluiu as ações do Banco do Brasil (BBAS3), como forma de capturar a reprecificação do risco eleitoral, com o mercado vendo maior chance de um segundo turno competitivo.
“A ação negocia a múltiplos mais baixos e tende a responder melhor à retomada do fluxo estrangeiro, embora a melhora operacional deva permanecer gradual”, avalia a corretora.
O papel já vem reagindo ao cenário eleitoral. Após recuar 16,63% entre o início e meados de agosto, a ação do BB inverteu o movimento e disparou 28,94% de 18 de agosto para 10 de setembro, data em que o Ibovespa atingiu seu maior nível desde abril, segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria.
O estudo mostra que ações ligadas à economia doméstica lideraram a recuperação da Bolsa após a onda de quedas em agosto. Magazine Luiza (MGLU3) e Yduqs (YDUQ3) registraram ganhos de 38,79% e 37,65%, respectivamente, entre 18 de agosto e 10 de setembro. O grande destaque, porém, foi a CSN (CSNA3), que saltou 58,37% no período.
Além do BB, outra empresa que pode se beneficiar do trade eleitoral na Bolsa é a Petrobras (PETR3;PETR4). Tanto as ações ordinárias da companhia quanto as preferenciais já acumulam alta superior a 6% em setembro.
Em relatório, a Genial Investimentos aponta que parte relevante do desconto da empresa brasileira frente a petroleiras internacionais privadas (Exxon, Chevron, BP, Shell, TotalEnergies e ConocoPhillips) ou estatais (Sinopec, CNOOC e Equinor) está associada à sua natureza estatal, sobretudo diante da incerteza sobre política de preços, disciplina de capital e remuneração ao acionista.
A corretora calcula que o desconto das ações da Petrobras frente às concorrentes corresponde a 19,9% na comparação com as empresas estatais e a 46,6% na comparação com as companhias privadas.
Na visão da Genial, uma eventual vitória de um candidato pró-mercado poderia alterar rapidamente a percepção de risco, reduzindo o retorno exigido pelos investidores antes mesmo de qualquer mudança material nos resultados operacionais da Petrobras. “A eleição seria o início do processo. A sustentação dependeria de nomeações e decisões verificáveis ao longo do tempo”, diz.
Para Bruno Benassi, analista de ativos da Monte Bravo, embora a petroleira possa se beneficiar de uma disputa presidencial mais acirrada, a evolução do conflito no Oriente Médio e o comportamento do petróleo também devem influenciar o desempenho das ações. “Em caso de resolução da guerra e de correção do preço do petróleo, a Petrobras pode surfar menos o trade eleitoral”, sinaliza.
Com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em um eventual segundo turno nas eleições 2026, analistas já têm elaborado carteiras para cada cenário de vitória.
O Citi, em uma reeleição do petista, tende a preferir papéis all-weather – de empresas capazes de sustentar desempenho em diferentes condições de mercado – e nomes com exposição a programas públicos como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
Num cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, a preferência migra para ações cíclicas (mais sensíveis aos ciclos econômicos) e, de forma seletiva, para os papéis de companhias alavancadas, que se beneficiariam de juros longos mais baixos. Veja aqui as duas carteiras do Citi.
Já a Kinea Investimentos prefere uma carteira que faça sentido nos dois cenários. A gestora seleciona companhias com crescimento previsível de lucros, como nomes ligados ao MCMV e papéis do setor de utilities (energia e saneamento), enquanto busca capturar oportunidades de recuperação nos setores financeiro, industrial e varejista.
Max Bohm, estrategista-chefe da Nomos, construiu portfólios para os dois resultados da eleição. Em caso de reeleição de Lula, a escolha vai para Suzano (SUZB3), Weg (WEGE3), BB Seguridade (BBSE3), Caixa Seguridade (CXSE3) e Tim (TIMS3).
“Entendemos que, caso o Lula avance para o seu quarto mandato, em um primeiro momento, o dólar deve se valorizar frente ao real e as taxas de juros futuras devem abrir com a expectativa de mais gastos e desequilíbrio nas contas públicas”, afirma Bohm.
Por isso, o estrategista selecionou para a “carteira Lula” empresas exportadoras que se beneficiam de um dólar mais valorizado, assim como companhias mais defensivas, cujo modelo de negócio não depende tanto do crescimento da atividade econômica.
Já na “carteira Flávio”, Petrobras e Banco do Brasil estão presentes, assim como Axia Energia (AXIA3, ex-Eletrobras), BTG Pactual (BPAC11) e Cyrela (CYRE3). A ideia foi reunir estatais sujeitas a mudanças de gestão, empresas com potencial de melhora na governança e companhias cíclicas beneficiadas por juros mais baixos.
Matéria publicada no E-Investidor (Estadão).