Mundo empurra ajuste fiscal com a barriga

02/06/2026 • 3 mins de leitura

O mundo voltou a conviver com níveis elevados de endividamento e segue adiando ajustes fiscais difíceis, afirmou Fernanda Rocha, assessora de investimentos da Monte Bravo e Notável do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Fernanda disse que guerras e crises costumam elevar a relação entre dívida e PIB, mas pontua que o cenário atual é diferente, já que vários países chegam aos conflitos com balanços públicos pressionados.

Segundo ela, a dívida global está hoje próxima de 93% a 95% do PIB, depois de choques como a crise financeira de 2008, a pandemia de Covid-19 e a expansão monetária adotada por governos e bancos centrais.

“Isso realmente complica, porque hoje a gente tem bancos centrais independentes, mas eles podem perder seus mecanismos se a gente entrar em dominância fiscal”, afirmou.

Fernanda disse que, nesse cenário, os governos acabam obrigados a fazer ajustes que foram adiados por anos.

“É aquele momento em que não tem para onde fugir. A reforma fiscal tem que ser feita, vai ter que cortar gasto, vai ter que ser feito tudo aquilo que todo mundo está empurrando com a barriga”, disse.

Guerras e dívida pública

A Notável comparou o impacto fiscal de diferentes conflitos ao longo da história. A Primeira Guerra Mundial começou com uma relação dívida/PIB de 23% e terminou em 60%.

Na Segunda Guerra Mundial, a relação saiu de 45% e chegou a 132%, em meio aos custos de reconstrução e ao esforço de guerra.

“Foi um impacto muito grande. Teve enormes gastos para reconstruir, para se reerguer”, afirmou.

Fernanda disse que, no pós-guerra, a economia global conseguiu reduzir o endividamento com forte expansão, pleno emprego, crescimento populacional e superávits fiscais. Na Guerra do Vietnã, a relação dívida/PIB estava em cerca de 35% e subiu para 40%.

Já nas guerras do Iraque e do Afeganistão, no início dos anos 2000, o mundo partiu de uma relação próxima de 72% e passou de 100%, em um período também marcado pela crise do subprime.

“Desde então, a gente não voltou mais para patamares mais confortáveis”, disse.

Risco de dominância fiscal

Fernanda afirmou que o risco mais sensível hoje é a dominância fiscal, cenário em que a política monetária perde eficácia diante do peso da dívida pública e da necessidade de financiamento dos governos.

Segundo ela, se uma economia como os Estados Unidos entrasse nesse quadro, o impacto seria global.

“Se os Estados Unidos entram em dominância fiscal, não tem como a gente ficar de fora. Isso acaba puxando toda uma cadeia de países.”

A assessora disse que o Brasil tem algum alívio por ser exportador de commodities e energia, o que pode favorecer a balança comercial em períodos de tensão geopolítica. Ainda assim, o país não ficaria isolado de uma deterioração fiscal global.

Bolsa, proteção e inflação

Fernanda também chamou atenção para os múltiplos da bolsa americana. Segundo ela, quando o indicador preço/lucro ajustado ciclicamente se aproximou de 40 ou superou esse nível, os retornos dos anos seguintes foram mais fracos.

Ela citou dois momentos em que o indicador passou dessa marca: a crise de 1929 e a bolha das empresas pontocom.

“Isso significa que a gente de novo vai ter um grande acontecimento como esses? Não significa. Mas todas as vezes que se aproximou de 40 ou passou de 40, os próximos 7 a 10 anos foram de retornos muito mais fracos ou não teve retorno”, afirmou.

Para a Notável, o investidor deve ter cautela na exposição à bolsa e buscar proteção.

“É um momento ótimo para se proteger”, disse.

Fernanda afirmou que, em cenários de dominância fiscal ou inflação persistente, a renda fixa tradicional pode não preservar totalmente o poder de compra. Por isso, vê espaço para ativos ligados à inflação e ativos reais.

“Ativos de inflação são ótimos ativos para te proteger, e também ativos reais.”

Leia aqui a reportagem publicada na Times Brasil. Veja abaixo o programa completo.

Leia mais sobre: