Mercados positivos, mas maior seletividade

12/12/2025 • 3 mins de leitura

Mais importante do que tentar antecipar cenário para 2026 é compreender onde estão assimetrias e como ajustar portfólio para aproveitar oportunidades sem riscos desnecessários

Com o final do ano se aproximando, é natural fazermos um balanço de 2025 e começarmos a olhar para o que nos aguarda em 2026. Talvez mais importante do que tentar antecipar o cenário – afinal, ninguém tem bola de cristal – é compreender os diferentes caminhos possíveis, onde estão as melhores assimetrias. Isto é, melhores relação de ganho versus perda por cenário e como ajustar os portfólios para aproveitar oportunidades sem assumir riscos desnecessários. É esse exercício que buscamos sintetizar aqui.

Os mercados globais avançaram ao longo do ano amparados por uma combinação rara: inflação sob controle, atividade resiliente e perspectiva de cortes adicionais de juros. O pano de fundo segue compatível com o chamado pouso suave, mas a assimetria que marcou os últimos trimestres diminuiu. Depois de uma sequência de meses positivos, o espaço para valorizações adicionais passou a exigir maior seletividade.

No último Comitê de Investimentos em que participei, pela primeira vez em meses surgiram leituras mais divididas. Parte do grupo avaliou reduzir o risco em ações globais diante da pior relação ganho/perda nos preços, mas a visão dominante seguiu favorável e houve consenso que uma eventual correção representaria mais uma oportunidade de compra do que o início de uma reversão estrutural.

Nos títulos públicos dos EUA, optamos por alongar a “duration”. O prêmio adicional oferecido nos vencimentos intermediários e longos, somado ao papel defensivo dessa posição caso a atividade desacelere, segue justificando a postura. Para um mundo que ainda opera sob juros historicamente elevados, esse carregamento representa um fator favorável no momento.

A estratégia global continua ancorada em três pilares: bonds de prazo intermediário, ações globais e ouro como proteção estrutural. Essa combinação tem se mostrado capaz de capturar retorno em cenários benignos e proteger o capital se a economia global esfriar. Mesmo após a realização recente, o ouro continua atraente: juros reais provavelmente mais baixos, a possibilidade de o dólar enfraquecer um pouco mais e compras consistentes de bancos centrais, sobretudo emergentes, reforçam o suporte estrutural do ativo.

Nos Estados Unidos, mesmo com a paralisação parcial do governo e a falta temporária de dados, os indicadores disponíveis apontam para uma economia ainda robusta e sem indícios de nova pressão inflacionária. A guerra tarifária segue alterando preços relativos, mas não produziu um ciclo inflacionário persistente.

A Europa avança para um pouso suave, enquanto na China os efeitos das tarifas são mais nítidos, ainda que, por ora, o risco de um impacto mais profundo no PIB permaneça moderado.

Já os ativos brasileiros surfaram o bom humor global, impulsionados pela perspectiva de cortes da Selic em 2026. Mesmo assim, seguimos entendendo que a melhor forma de capturar retorno continua sendo via mercados externos, evitando o risco específico do Brasil, especialmente às vésperas da eleição. O ciclo eleitoral de 2026 adiciona incerteza e torna o ambiente menos propício a apostas direcionais. Os resultados são binários e podem produzir movimentos abruptos nos preços.

Diante desse quadro, nossa atenção permanece voltada para estratégias de assimetria, avaliando o equilíbrio entre retorno potencial e risco. Mantemos posições relevantes em ativos indexados à inflação (IPCA+), que oferecem proteção e retorno real ainda bastante interessantes, além de uma parcela pós-fixada com baixo risco de crédito. As posições em bolsa, prefixados e multimercados seguem modestas, com caráter mais tático e calibradas para evitar exposição excessiva a cenários binários.

Em linhas gerais, entramos no final de 2025 com um cenário global que ainda favorece o risco, mas exige cada vez mais seletividade. No Brasil, permanecem boas oportunidades estruturais via IPCA+ e oportunidades táticas pontuais, mas o ambiente político recomenda prudência.

A mensagem principal é simples: alocação equilibrada continua sendo a melhor forma de capturar o potencial de valorização dos ativos, ao mesmo tempo em que preserva o portfólio contra surpresas que, em momentos como este, surgem sem aviso prévio.

Artigo de opinião produzido por Guilherme Loureiro, CIO da Monte Bravo, para o Valor Econômico.