Mercado de ETF tem potencial para dobrar de tamanho antes de 2030, diz Itaú

09/06/2026 • 5 mins de leitura

Se Brasil tiver a mesma fatia em capitalização de mercado da bolsa, segmento pode crescer 10 vezes

Os fundos de índice negociados em bolsa (ETF) atingiram um patrimônio de R$ 111,8 bilhões em maio, com cerca de 1 milhão de investidores, após a categoria captar R$ 25,8 bilhões em dinheiro novo neste ano, valor muito superior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando atraiu R$ 3,8 bilhões.

Mas esse é um segmento que está apenas começando a ganhar tração, diante das transformações recentes na distribuição de investimentos. Com o modelo de “fee based” ganhando relevância nas assessorias de investimentos e consultorias, cada vez mais o ETF vem sendo utilizado como um instrumento financeiro eficiente para fazer alocação de portfólios, pelo baixo custo em relação aos fundos condominiais.

“Se pegar o mercado internacional como base do crescimento, é possível acreditar que vai dobrar de tamanho muito antes de 2030”, disse Arthur Carasso, chefe de soluções do private bank global do Itaú, em evento que abriu hoje a sexta semana dedicada a ETFs, promovida pela Itaú Asset Management. Não só pelo ritmo que tomou, mas também pela “jabuticaba” brasileira de ter uma inclinação muito mais voltada para a renda fixa do que para a variável, “uma cultura difícil de quebrar, seria combater a natureza do brasileiro”. Do ano passado para cá, uma série de ETFs de renda fixa foram listados na bolsa brasileira.

Os ETFs ofertados no Brasil representam hoje 0,13% do mercado global, que gira em torno de US$ 18 trilhões, enquanto o país tem uma participação de 1,5% no bolo internacional de ações. “Se o Brasil tivesse a mesma representação em capitalização de mercado da bolsa, teria pelo menos 10 vezes para crescer o ETF no mercado brasileiro, mesmo sem crescer o mercado como um todo. O Brasil ainda está no início de um processo de crescimento para se equiparar ao que é no mundo, dá para crescer 10 vezes de forma rápida e importante, mas tem nuances no Brasil diferentes das internacionais. Há muito oportunidade de fluxo, de migração das estratégias que existem hoje convergindo para ETFs”, continuou Carasso.

Com cerca de R$ 540 bilhões em carteiras administradas pela área de soluções de investimentos da Itaú Asset, em 11 meses a alocação via ETFs teve um incremento de R$ 2,5 bilhões, segundo Sylvio Castro, chefe global da área e de fundos de fundos da gestora. Só que uma fatia de 75% do que aloca é ainda por meio de fundos que compram ETFs por causa da complexidade tributária para entrar e sair das posições. “Onde que o mercado pode chegar? Acho que no final das contas a resposta está na renda fixa no Brasil, vai depender do quão competitivo vai tornar o ETF em relação ao CDB e ao fundo mútuo. Se a indústria de fato quiser tornar esse mercado eficiente, pode ficar muito grande.”

No ranking de gestão de recursos da Anbima, que representa os mercados financeiros e de capitais, a Itaú Asset aparecia, ao fim de abril, como a segunda maior do país, com R$ 1,3 trilhão sob o seu guarda-chuva, sendo R$ 32,4 bilhões em ETFs.

Castro comentou que para a pessoa física que não tem familiaridade com investimentos há ainda um caminho a percorrer porque a compra de um ETF requer abertura de conta numa corretora e para o brasileiro essa é uma iniciativa que parece estar ligada à renda variável.

Filipe Portella, cofundador e CEO da Monte Bravo Corretora, uma das instituições precursoras na adoção do modelo de “fee based”, ainda quando era uma assessoria de investimentos, diz que um fator que pode acelerar o processo de migração do investidor para essa forma de remunerar o serviço de aconselhamento é o Brasil passar por uma fase de “bull market”, com maior disposição à tomada de risco. Na hora que alguém ligar para o investidor recomendando resgatar um título de renda fixa para investir em algo mais arrojado, ele vai entender o valor do aconselhamento, sabendo que aquilo que paga já contempla as mudanças táticas e estruturais na carteira, não há nenhuma comissão extra envolvida.

Com os juros altos, o brasileiro simplesmente estacionou nas classes mais conservadoras. “Os ETFs que crescem são de renda fixa, claro que o Brasil é o país da renda fixa, ainda está um pouco travado, mas se tirar a tensão, o mercado vai acelerar, não é um passo que vá acontecer da noite para o dia”, disse Portella. Para ele, o processo educacional passa primeiro pelos profissionais de investimentos para então chegar no investidor. “A indústria se transforma junto com as gestoras. Saiu muito dinheiro de fundos de ações e de multimercados que quando voltar já volta para outra ponta, não volta mais no fundo 2 com 20 [% de taxa de administração e performance].”

Marília Fontes, da Nord, comentou que o serviço de consultoria da companhia acabou crescendo muito mais do que o da atividade de pesquisa de investimentos, que deu origem ao grupo. “As pessoas estão cada vez mais entendendo que é o modelo do futuro e que tira muito dos conflitos de interesse”, afirmou, referindo-se ao arranjo tradicional de se remunerar a distribuição por meio de comissões por produtos vendidos.

Portella disse ainda que os resultados já são mensuráveis, com aumento do tíquete médio atendido pela Monte Bravo, de R$ 400 milhões nas carteiras aderentes ao fee, e também na rentabilidade final do cliente, simplesmente porque o custo é mais baixo ao se combinar a alocação com uma série de ETFs. “Imagina 1,5% a menos de custo todo ano, não tem como o ‘compound’ disso não ser vantajoso. E coloca isso em dez anos, a mesma estratégia de gestão você tira de 20% a 30%.”

Numa carteira administrada, a relação é de um profissional falando com outro profissional e não do profissional com o investidor leigo, continuou Portella. “Eu sei que 2% é caro, 1,5% é muito dinheiro numa emissão, que 5% num COE [certificado de operações estruturadas] é muito. Acontece no mundo das consultorias e em multifamily offices, quando passar para assessoria e bancos vai transformar a indústria de ETFs e vai virar um mercado como é hoje nos Estados Unidos, em que metade do volume negociado na bolsa é de ETF.”

Paulo Costa, economista comportamental sênior da estratégia de investimentos da Vanguard, disse que numa das pesquisas feitas pela casa mais de 80% dos clientes que buscam assessoria é porque pensam no planejamento financeiro e alocação de portfólio, mas a razão pela qual permanecem é emocional, é a paz de espírito que ganham ao saber que tem alguém em quem confiam cuidando da vida financeira dele. Ele ganha tempo. Isso também foi mensurado pela gestora, representa uma economia de duas horas por semana, mais de 100 horas por ano.

Gustavo Cerbasi, especialista em inteligência financeira, contou ter ficado incomodado quando um ano atrás no consultório médico, o profissional que o atendia num tratamento ganhou confiança para mostrar a tela do computador com o fechamento do mercado. “Era um perfil para ser mais de investimento passivo, não era o perfil de analisar a abertura e fechamento de mercado, se deparar com soluções que são mais para o público mais ativo, com conhecimento mais aprofundado e com mais ferramentas à disposição. Isso acaba sendo uma armadilha.”

Para o especialista, a popularização da educação financeira ainda não convida o brasileiro a estratégias para pensar em carreira, família e aposentadoria. Apostas online, loteria e jogos do tigrinho acabaram bebendo na fonte dos argumentos dos educadores financeiros como atalhos para se atingir certos objetivos. Ganha força o investimento altamente especulativo. “A educação financeira ainda é carente de formar investidores de longo prazo.”

Leia aqui a reportagem publicada no Valor Econômico.