Kapitalo inicia rotação para ações domésticas e vê espaço para retomada da Bolsa

16/06/2026 • 4 mins de leitura

Tese da gestora de R$ 32 bilhões combina commodities fortes e possível alívio no custo do dinheiro

Mesmo com a piora recente do humor do mercado em relação ao Brasil, a Kapitalo Investimentos começou a girar parte da carteira para ações ligadas à economia doméstica, em um movimento que busca antecipar uma possível retomada da Bolsa, segundo Bruno Mauad, sócio e gestor de renda variável Brasil.

A gestora, que tem R$ 32 bilhões sob gestão, mantém posição relevante em exportadoras, mas já adiciona nomes descontados e menos alavancados, apoiada em uma leitura que combina demanda global por commodities e espaço, ainda que incerto, para queda de juros.

Evento da Monte Bravo com gestores para discutir estratégias de investimentos.
Evento com gestores do mercado para discutir estratégias de investimentos.

Da proteção global à volta ao doméstico

A principal posição nos fundos de ações locais da casa ainda está em exportadoras, como a mineradora de ouro Aura, o maior peso, e Embraer. Aos poucos, porém, a gestora está “colocando o pé” em nomes ligados à economia doméstica que estejam menos alavancados e pareçam descontados na Bolsa, como Renner e Natura.

A explicação vai além dos fundamentos locais.. Para Mauad, há uma conjuntura global de demanda por commotidies que pode ajudar o País, além de certo histórico que leva a crer que o Executivo não vai “pular do precipício” ou “virar a Venezuela” em termos de contas públicas.

“Nos últimos 12 meses, havia várias probabilidades positivas para o Brasil. Commodities para cima, expectativa de que o mundo ia cortar juros, além de certa discussão sobre uma mudança na mentalidade do governo. Tudo isso ajudou a Bolsa a andar”, disse.

O que azedou o mercado nas últimas semanas

Desde a eclosão da guerra, o mercado passou a duvidar se o custo do dinheiro realmente vai cair; tanto no que diz respeito à queda de juros, quanto à condução de política econômica no Brasil. Isso fez as ações brasileiras caírem de quase 200 mil pontos para os atuais 170 mil.

Já a possibilidade de um novo ciclo mais forte para commodities, devido à necessidade de infraestrutura para os investimentos que estão sendo realizados em inteligência artificial, segue jogando a favor. A incerteza geopolítica também contribuiu para que a demanda pelos materiais aumente.

“A não ser que o mundo entre em recessão, o que não é nosso cenário-base, não acho que a Space X, que captou US$ 75 bilhões no IPO vá deixar de fazer seus investimentos ou as Filipinas, que ficaram sem petróleo com a guerra, vão deixar de estocar commodities. Ainda acho que o cenário pode ser positivo para Brasil”, explicou o gestor da Kapitalo. “Com commodities em alta, se o custo do dinheiro cair, pode acontecer o mesmo que vimos em 2016, 2017. Um cenário muito benéfico para ações.”

O gestor participou nesta sexta-feira (12) de um evento da Monte Bravo em São Paulo. Executivos discutiram como equilibrar a carteira de investimentos entre a alocação local e internacional, em um mundo volátil e com tantas incertezas macroeconômicas e geopolíticas.

Como a gestora está equilibrando a carteira

Lá fora, a continuidade da guerra no Oriente Médio ainda gera dúvidas se o atual choque do petróleo vai contaminar a economia global de forma mais expressiva. Isso dependerá do tempo de duração do conflito. A pressão que esse fator pode causar na inflação, em um contexto em que as grandes economias globais já estão em restrição monetária, fez o mercado passar a precificar que os Estados Unidos podem não ter espaço para reduzir mais sua taxa de juros. Com os resultados das empresas, especialmente as ligadas à inteligência artificial, ainda altos e a economia resiliente, as atenções das últimas semanas se voltaram mais uma vez ao mercado do país.

No Brasil, a incerteza tem a ver com o fiscal. O mercado também passou a precificar que o Banco Central pode optar pela manutenção da taxa Selic nos atuais patamares de 14,5% – até poucas semanas, o consenso indicava continuidade no ciclo de queda iniciado em março.

E isso passa diretamente pelo resultado das eleições. Na Faria Lima, predomina o entendimento de que o atual governo Lula não vai fazer um ajuste relevante para resolver o problema das contas públicas se reeleito e a esperança de uma mudança na condução de política econômica no Brasil está na alternância de poder.

Com a disputa política ainda muito aberta e a quatro meses da votação, a Monte Bravo acha precipitado apostar demais em uma direção ou outra. O caminho da alocação passa por encontrar um ativo que se destaque nos dois cenários. E a resposta são as NTN-Bs.

Leia mais: Por que aumentar a alocação no tesouro IPCA + , segundo Monte a Bravo

Entre NTN-Bs, exterior e proteção

O Tesouro IPCA+ está pagando 8% de juro real ao ano ao investidor, no maior nível da série histórica. “Não é um ativo que vai ganhar dinheiro no cenário negativo, é defensivo. Mas, no cenário bom, se os problemas estruturais forem endereçados e o Brasil conseguir flertar com juros reais mais civilizados, os títulos podem dar ‘retorno de Bolsa’”, disse Guilherme Loureiro, CIO da Monte Bravo.

A alocação sugerida aos clientes está sendo dividida principalmente entre NTN-Bs e offshore, para que o investidor não fique de fora do bom momento das empresas de tecnologia e da proteção do dólar, importante caso o cenário fiscal do Brasil se deteriore de forma relevante. “O desafio hoje é mensurar o tamanho do investimento no exterior, de tal forma que não mate a alocação local se tudo der certo, mas garantindo uma boa capacidade de proteção”, explicou Loureiro.

O outro ativo que merece lugar na carteira, consenso entre os dois executivos, é o ouro, dada a demanda crescente da commodity no mundo e a capacidade de proteção que o metal oferece. Para o CIO da Monte Bravo, a queda recente da cotação abriu uma janela de entrada. Em 30 dias, a desvalorização foi de 10%.

Kapitalo gosta de fazer essa alocação via Aura, porque a empresa ainda permite exposição a tese do cobre, que também está em um momento positivo.

Leia a reportagem publicada no E-Investidor.