Infla­ção fecha o ano com alta de 4,26% e fica abaixo do teto da meta do BC

12/01/2026 • 4 mins de leitura

É a 1ª vez no atual governo Lula. Com juro alto, dólar baixo e queda de ali­men­tos, índice é o menor desde 2018, mas ser­vi­ços pres­si­o­nam

Com IPCA de 0,33% em dezem­bro, acu­mu­lado do ano ficou em 4,26%, o menor valor desde 2018. Especi­a­lis­tas aler­tam, no entanto, para pres­são do setor de ser­vi­ços.

O Ín­dice Naci­o­nal de Pre­ços ao Con­su­mi­dor Amplo (IPCA) — usado como parâ­me­tro da meta de infla­ção do Banco Cen­tral (BC) — subiu 0,33% em dezem­bro, abaixo do pre­visto. Com o resul­tado, a infla­ção acumu­lada em 2025 ficou em 4,26%, den­tro da meta, que é de 3%, com limite máximo de 4,5% e piso de 1,5%. No iní­cio do ano pas­sado, as pro­je­ções do mer­cado para o IPCA che­ga­vam a 5% e 6%, mas o índice de pre­ços aca­bou ficando abaixo do teto da meta pela pri­meira vez no atual governo Lula e com a menor taxa desde 2018.

A gente come­çou 2025 com dólar a R$ 6,20. Naquele momento, a pro­je­ção de infla­ção rom­pia muito o teto da meta. Fechar o ano com 4,26% é real­mente uma dinâ­mica muito favo­rá­vel — ava­lia Luci­ano Costa, eco­no­mista da Monte Bravo.

Eco­no­mis­tas afir­mam que a forte ele­va­ção feita pelo BC na taxa básica de juros, a Selic, que che­gou a 15% ao ano, foi essen­cial para evi­tar que o IPCA estou­rasse a meta, com a desa­ce­le­ra­ção da eco­no­mia. Além disso, a com­bi­na­ção de boas safras, com con­di­ções cli­má­ti­cas favo­rá­veis, e a valo­ri­za­ção do real frente ao dólar fize­ram com que o grupo de ali­men­ta­ção no domi­cí­lio desa­ce­le­rasse de 8,23% em 2024 para 1,43% em 2025.

No começo do ano pas­sado havia ana­lis­tas espe­rando quase 9% de infla­ção de ali­men­tos no acu­mu­lado de 2025. Foi 1,4%, uma sur­presa bem grande — disse Flá­vio Ser­rano, eco­no­mista do BMG.

Fazenda comemora

O secre­tá­rio exe­cu­tivo do Minis­té­rio da Fazenda, Dario Duri­gan, titu­lar inte­rino da pasta nas férias do minis­tro Fer­nando Had­dad, cele­brou: “Os 4,26% são o menor IPCA desde 2018, quando o desem­prego estava em 11,6%. Agora está em 5,2%. Esta­mos entre­gando infla­ção e desem­prego bai­xos”, escre­veu Duri­gan no X.

O resul­tado anual, no entanto, per­ma­ne­ceu longe do cen­tro da meta de 3%. Alguns itens impe­di­ram que a desa­ce­le­ra­ção anual fosse maior. A ener­gia elé­trica foi a maior vilã de 2025, com alta anual de 12,31%.

Se não fosse isso, a gente tal­vez tivesse ter­mi­nado com uma infla­ção em torno de 4% — afirma o coor­de­na­dor dos índi­ces de pre­ços do FGV Ibre, André Braz.

Mas o grupo que mais pre­o­cupa os eco­no­mis­tas é o de ser­vi­ços, que ace­le­rou de 4,78% em 2024 para 6,01%, impul­si­o­nado por um mer­cado de tra­ba­lho aque­cido. O seg­mento de ser­vi­ços repre­senta cerca de 30% do orça­mento fami­liar. Se o grupo for somado ao dos pre­ços moni­to­ra­dos — aque­les regu­la­dos pelo poder público, como luz, água e esgoto, trans­porte público e com­bus­tí­veis —, que subi­ram 5,2%, repre­sen­tam jun­tos cerca de 55% da renda das famí­lias.

Mais da metade do orça­mento fami­liar teve que con­vi­ver com a infla­ção um ponto acima do teto da meta. E é isso que ainda coloca a gente num cená­rio de infla­ção que pre­o­cupa — diz Braz.

Segundo os eco­no­mis­tas, o mer­cado de tra­ba­lho ainda aque­cido — com o desem­prego em mínimas histó­ri­cas e a renda batendo recor­des con­se­cu­ti­vos — é o prin­ci­pal res­pon­sá­vel pelo cená­rio.

Já é con­senso que o BC ini­ci­ará um ciclo de cor­tes de juros este­ano,masa­sa­pos­tas­se­di­vi­dem: se será na reu­nião do Copom nos dias 27 e 28 deste mês, ou em março. Para mui­to­sa­na­lis­tas,éjus­ta­men­te­a­in­fla­ção de ser­vi­ços que deve man­ter o BC cau­te­loso.

Se a ati­vi­dade não desa­ce­le­rar tanto e o mer­cado de tra­ba­lho não pio­rar um pouco, a infla­ção de ser­vi­ços ainda vai ficar puxada. Isso é um grande desa­fio para o BC ao longo de 2026 — diz Ser­rano.

Mais oti­mista, Costa vê moti­vos para um corte na Selic já neste mês:

A infla­ção em 12 meses está caindo, as expec­ta­ti­vas de infla­ção estão bem anco­ra­das com o pro­cesso de queda, mas o juro real con­ti­nua subindo. Por­tanto, não faz sen­tido aper­tar pas­si­va­mente o juro real quando a eco­no­mia está dando sinais de desa­ce­le­ra­ção. Então, o BC deve­ria come­çar o corte de juros em janeiro.

Eleições e incertezas

Para este ano, os eco­no­mis­tas pre­veem pre­ços de ali­men­tos mais pres­si­o­na­dos por um lado e, por outro, alí­vio da ener­gia elé­trica, com ban­deira tari­fá­ri­a­verde,euma­me­no­rin­fla­ção dos ser­vi­ços pela desa­ce­le­ra­ção da eco­no­mia. Ser­rano e Braz veem o ano ter­mi­nando com IPCA em torno de 4%. Mas citam incer­te­zas sobre as polí­ti­cas de Donald Trump e a elei­ção pre­si­den­cial de outu­bro, que podem tra­zer vola­ti­li­dade ao câm­bio.

O secre­tá­rio de Polí­tica Eco­nô­mica da Fazenda, Gui­lherme Mello, reco­nhe­ceu o papel da atu­a­ção do BC no com­bate à infla­ção em 2025. Mas, ao GLOBO, des­ta­cou fato­res além da efi­cá­cia da polí­tica mone­tá­ria:

IPCA mos­tra que a polí­tica mone­tá­ria fun­ci­ona. Mas mos­tra tam­bém que houve um esforço de coordenação de polí­tica eco­nô­mica, prin­ci­pal­mente do final do último tri­mes­tre do ano pas­sado até o ter­ceiro tri­mes­tre deste ano.

Ele enfa­tiza que os 4,26% são o melhor resul­tado do atual governo Lula, que come­çou o ano pas­sado com o mer­cado pro­je­tando que seria o pior da ges­tão.

Para Mello, os núme­ros da infla­ção­ re­for­ça­m o­ de­ba­te ­so­bre qual é a real capa­ci­dade de cres­ci­mento da eco­no­mia, o cha­mado PIB poten­cial. Ele pon­dera que “uma taxa de desem­prego mais baixa não neces­sa­ri­a­mente repre­sen­tou uma infla­ção muito mais pres­si­o­nada”.