Conflito testa equilíbrio entre crescimento e inflação

14/04/2026 • 3 mins de leitura

Principal determinante do cenário passa pela duração do conflito e pelo grau de restrição no fluxo de petróleo

O início de 2026 manteve o ambiente construtivo observado ao longo de 2025, mas março trouxe uma inflexão relevante. A escalada do conflito no Oriente Médio, envolvendo Irã e Estados Unidos, introduziu um novo vetor de risco, centrado no mercado de energia, interrompendo o equilíbrio entre crescimento e inflação que vinha sustentando os ativos.

A reação inicial seguiu o padrão clássico de choques de oferta: alta do petróleo, fortalecimento do dólar, elevação das curvas de juros e queda dos ativos de risco, especialmente, em economias mais dependentes de energia importada. Nesse primeiro momento, prevaleceu a leitura inflacionária e o foco na reação dos bancos centrais.

Com o prolongamento do conflito a interpretação começa a evoluir. A persistência de preços elevados de energia passou a afetar expectativas de atividade, deslocando gradualmente a preocupação de inflação para crescimento. Esse movimento é consistente com episódios anteriores: choques de energia comprimem renda disponível, apertam condições financeiras e penalizam setores cíclicos, aumentando o risco de desaceleração global.

O principal determinante do cenário passa pela duração do conflito e pelo grau de restrição no fluxo de petróleo. Em um cenário de resolução mais rápida, o petróleo tenderia a recuar para níveis mais próximos de US$ 80 a US$ 90 por barril, permitindo a recomposição do ambiente benigno. Já em um cenário mais prolongado poderia levar os preços para US$ 125 a US$ 150, configurando um quadro próximo de estagflação, ainda que com provável migração progressiva da preocupação inflacionária para o crescimento.

Do ponto de vista de política monetária, choques dessa natureza tendem a impactar mais a inflação cheia do que os núcleos. Historicamente, bancos centrais buscam “olhar através” desses movimentos, focando nos efeitos secundários e na ancoragem das expectativas. Esse padrão também se reflete na dinâmica das curvas: inicialmente pressionadas pelo risco inflacionário, em especial aos vértices mais curtos, mas com tendência de fechamento nos vértices longos à medida que o impacto sobre o crescimento se materializa.

Nesse contexto, reforça-se o papel de ativos como renda fixa soberana de maior prazo e ouro como proteção de portfólio. Na margem, aumentamos moderadamente o prazo dos títulos no exterior e elevamos o nível de caixa, equilibrando a captura de cenário benigno com proteção para um ambiente mais adverso.

No Brasil, embora o impacto inicial tenha sido negativo, o país pode se beneficiar relativamente, dada a sua exposição a commodities e a menor proximidade com o conflito. Seguimos confortáveis com uma alocação doméstica concentrada em ativos pós-fixados e indexados à inflação, que tendem a performar melhor em cenários de inflação pressionada e crescimento mais fraco.

Outro fator que começa a ganhar relevância é a formação gradual do cenário eleitoral de 2026. Pesquisas recentes indicam empate técnico entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro, sugerindo um ambiente potencialmente polarizado desde cedo. A economia exerce papel relevante nas eleições, mas desta vez seu impacto pode ser mais limitado, dado ao horizonte curto para deteriorações se refletirem de forma decisiva. Por outro lado, temas como corrupção e segurança pública seguem sensíveis ao eleitorado. Os episódios incluindo casos envolvendo o INSS e o banco Master, permanecem no radar e podem influenciar as pesquisas no curto prazo.

Do ponto de vista macro, observamos elevação nas projeções de inflação, o que pode tornar o Banco Central mais cauteloso no curto prazo, mas não altera, em nossa avaliação, a trajetória de queda da Selic. Ao contrário, reforça a atratividade dos ativos indexados à inflação.

O principal risco para essa alocação seria um cenário semelhante ao de 2022, com um choque inflacionário mais amplo e disseminado ao longo da cadeia produtiva global. Naquele momento, a combinação de disrupções logísticas e estímulos de demanda reduziu os benefícios de diversificação e elevou o papel do caixa como principal proteção. Hoje, entendemos que esse risco é mais limitado, uma vez que o choque atual parece mais concentrado em energia e ocorre em uma economia global mais ajustada e com menor estímulos fiscais e monetários.

Ainda assim, o grau de incerteza recomenda cautela. Mantemos uma alocação que busca capturar um eventual retorno ao ambiente construtivo, sem abrir mão de proteção em cenários adversos. As correções como observadas em março, historicamente, tendem a abrir pontos de entrada mais atrativos, elevando o retorno esperado à frente. Nesse contexto, diversificação e gestão cuidadosa de risco seguem como pilares centrais para atravessar períodos como o atual com consistência.

Leia aqui o artigo de opinião de Guilherme Loureiro, CIO da Monte Bravo, publicado no Valor Econômico. Abaixo, publicação no impresso.