Transição para economia de crescimento moderado

03/12/2025 • 3 mins de leitura

O Brasil entra em 2026 com desafios estruturais e espaço limitado para erros. Precisará equilibrar a busca por crescimento com o compromisso com a estabilidade

Luciano Costa é economista-chefe da Monte Bravo

A economia brasileira entra em 2026 sob o peso de uma desaceleração que se consolidou ao longo de 2025, mas com sinais de que o próximo ciclo poderá ser de transição. O ritmo mais lento da atividade reflete o impacto prolongado da política monetária restritiva, que afetou especialmente a indústria e o consumo de bens duráveis. A esperada redução de juros abre espaço para que o próximo ciclo seja de transição.

A indústria segue como o elo mais frágil do crescimento. Setores sensíveis à taxa de juros registraram quedas no terceiro trimestre de 2025, enquanto a produção de bens intermediários evitou um resultado negativo mais amplo.

No varejo, os efeitos temporários de programas de incentivo como o Carro Sustentável já se dissiparam, enquanto as vendas voltaram a mostrar sinais de fraqueza. O setor de serviços ainda cresce, mas em ritmo mais moderado.

O mercado de trabalho reflete essa perda de tração. Após meses de redução, a taxa de desemprego voltou a subir, passando de 5,7% em julho para 5,8% em setembro. A expectativa é que o desemprego médio avance de 6,2% neste ano para 6,7% em 2026.

Por outro lado, a inflação tem apresentado comportamento favorável. O IPCA projetado para 2025 foi revisado para 4,5%. A partir de janeiro de 2026, o horizonte relevante da política monetária passa a ser o terceiro trimestre de 2027, e a projeção do IPCA para esse período deve indicar convergência da inflação para meta de 3,0%.

Esse cenário cria um ambiente propício para o início do ciclo de cortes de juros. A projeção é que o Banco Central reduza a Selic em 0,50 ponto percentual, para 14,5% ao ano (a.a), na primeira reunião de 2026, encerrando o ano com a taxa em 11% a.a.

No campo fiscal, o governo enfrenta e continuará enfrentando desafios. A rejeição da MP 1.303/2025, que buscava compensar perdas de arrecadação, reduziu o espaço de manobra para o cumprimento da meta. Mesmo com medidas de controle de gastos, o déficit consolidado do setor público deve ficar em 0,8% do PIB em 2025 e chegar a 1% em 2026. O Orçamento do próximo ano ainda projeta receitas superestimadas e despesas subestimadas, sobretudo em áreas como Previdência e benefícios sociais, o que tende a agravar o desequilíbrio.

Nas contas externas, o déficit em conta corrente permanece elevado, em torno de 3,6% do PIB em 2025, pressionado pela redução do saldo comercial e pelo aumento nas remessas de lucros e dividendos. O investimento estrangeiro cobre parte do déficit, mas a dependência de capitais de curto prazo segue como ponto de atenção. A expectativa é que o real siga em trajetória de depreciação até o fim do ano, alcançando cerca de R$ 5,60 por dólar.

O conjunto dos indicadores sugere que o próximo ano será de transição. A inflação sob controle e a flexibilização monetária devem criar condições para uma retomada gradual da atividade. O crescimento projetado de 2% é modesto, mas representa convergência para o crescimento potencial da economia, que reduzirá as pressões inflacionárias e permitirá a redução das taxas de juros pelo Banco Central. A sustentação desse ambiente de juros mais baixos, no entanto, depende da condução da política fiscal.

O Brasil entra no novo ano com desafios estruturais e um espaço limitado para erros. A política econômica precisará equilibrar a busca por crescimento com o compromisso com a estabilidade. Caso consiga fazê-lo, 2026 pode marcar o início de um ciclo mais equilibrado e compatível com a capacidade da economia brasileira.

Artigo de opinião publicado no jornal O Tempo.

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