Guerra leva mercado a reduzir apostas no corte da Taxa Selic
17/03/2026 • 3mins de leitura
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Disparada no preço do petróleo complica cenário para decisão de política monetária
Com a guerra no Oriente Médio sem sinais de se aproximar do fim, o temor de uma nova escalada da inflação global, diante da disparada dos preços do petróleo, tem levado bancos e casas de investimento a reverem suas projeções para o esperado — até então — corte da Taxa Selic após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, que ocorre hoje e amanhã. Houve até quem passasse a esperar a manutenção da taxa em 15% ao ano, patamar considerado restritivo e em vigor desde junho de 2025.
Na última reunião, em 27 e 28 de janeiro, o próprio Copom indicou que daria início ao ciclo de redução da Selic em março, caso se confirmasse o cenário de desaceleração da economia. Ao mesmo tempo, o BC ressaltou que manteria uma “restrição adequada” para garantir a convergência da inflação à meta de 3%.
O tom mais brando fez com que a maior parte das instituições financeiras começasse a projetar um corte de até 0,50 ponto percentual, para 14,5%. No entanto, um mês depois, em 28 de fevereiro, o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã provocou forte escalada nos preços do petróleo. O barril do Brent, referência internacional, chegou a superar os US$ 100.
Embora tenha recuado ontem com a possibilidade de reabertura do Estreito de Ormuz, o barril ainda encerrou o dia em patamar elevado, a US$ 100,21.
Diante do risco de novas pressões inflacionárias, as instituições recalcularam suas estimativas. Bancos como Itaú, Goldman Sachs, Citi, BNP Paribas, Bank of America, Santander e BTG Pactual passaram a prever agora um corte mais moderado, de 0,25 ponto percentual, na Selic.
O Boletim Focus divulgado na segunda-feira também mostrou deterioração nas expectativas do mercado: a projeção de inflação para o fim deste ano subiu de 3,91% para 4,10%, enquanto a estimativa para a Selic avançou de 12,13% para 12,25%.
Analistas reveem decisão sobre a Selic — Foto: Editoria de Arte/O Globo
Para o BTG, em relatório assinado por Tiago Berriel, Iana Ferrão, Ederson Schumanski e Mateus Della, o “tamanho do choque recente no petróleo” e a “elevada incerteza sobre sua persistência” justificam um início de ciclo mais conservador.
O Citi, por sua vez, avalia que o Copom deve indicar que o aumento das incertezas no cenário global recomenda cautela adicional na condução da política monetária e que “permanecerá vigilante”.
A mudança mais significativa veio da XP Investimentos, que passou a prever a manutenção da taxa básica. “O fluxo de dados e notícias desde a última reunião do Copom piorou o cenário para a inflação”, afirma a casa, em nota assinada pelo economista-chefe, Caio Megale.
Segundo Megale, o cenário exige uma postura de “esperar para ver”, sem comprometer a credibilidade da política monetária.
Na outra ponta, embora com menos força, algumas instituições ainda apostam em um corte de 0,5 ponto percentual. Para Luciano Costa, economista-chefe da Monte Bravo, uma redução de apenas 0,25 ponto “faria pouco sentido em termos do nível de juros reais”, já que mesmo após um corte de 0,5 ponto a taxa permaneceria fortemente restritiva.
Para Costa, o que o choque do petróleo tende a alterar, principalmente, é o tamanho do ciclo de cortes projetado para os próximos meses.
Atividade cresce 0,8%
O BC divulgou ontem o IBC-Br, indicador conhecido como uma prévia do PIB. O índice mostra que a atividade econômica brasileira cresceu 0,8% em janeiro de 2026, na comparação com dezembro, considerando os dados com ajuste sazonal.
O resultado do mês foi puxado principalmente pelo setor de serviços, que registrou alta de 0,8%, e pela indústria, que avançou 0,4%. Já a agropecuária apresentou queda de 1,5%. O componente de impostos sobre produtos teve crescimento de 0,5%.
Quando se desconsidera o desempenho da agropecuária, o IBC-Br mostra avanço ainda maior, de 0,9%. O dado sinaliza um início de ano mais favorável para os demais setores da economia.
Frente a janeiro de 2025, a atividade econômica registrou crescimento de 1%. Já no acumulado de 12 meses até janeiro, a alta foi de 2,3%, segundo o BC. Considerando o trimestre encerrado em janeiro, o indicador também aponta avanço de 0,8% em relação aos três meses imediatamente anteriores.
Leia aqui a reportagem publicada no jornal O Globo. Abaixo versão impressa.