Veja as 10 maiores quedas do Ibovespa em março

01/04/2026 • 4 mins de leitura

Se, por um lado, o setor petroleiro vive “dias de glória” acompanhando a valorização da commodity, por outro, o restante do índice enfrentou uma tempestade

O otimismo que embalou o Ibovespa nos dois primeiros meses do ano encontrou uma barreira em março: a guerra no Oriente Médio. A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã redesenhou o mapa de riscos global e interrompeu a tendência positiva da bolsa brasileira. Se, por um lado, o setor petroleiro vive “dias de glória” acompanhando a valorização da commodity, por outro, o restante do índice enfrentou uma tempestade.

Quase ninguém se safou das perdas e, além do impacto geopolítico, o mercado precisou digerir mais uma temporada de balanços em que alguns setores sofreram mais, além de dados macroeconômicos que jogaram um balde de água fria nas expectativas de juros bem menores ao fim do ano.

No mês, três fatores principais impactaram o mercado, segundo Bruno Benassi, analista de ativos na Monte Bravo:

  • Juros: O corte da Selic de 0,25 ponto percentual frustrou quem apostava ainda na redução de 0,50 p.p.;
  • O conflito entre EUA e Irã não apenas pressiona a inflação global (com disparada do petróleo), mas aumenta a aversão ao risco em mercados emergentes e os investidores globais vão se proteger com ele: o dólar.

Confira as maiores quedas de março:

Piores no mês de março

Class.PapelCódigoVariação (%)Cotação
1SID NACIONAL ONCSNA3-26,576,33
2MRV ONMRVE3-23,147,87
3MINERVA ONBEEF3-18,584,25
4DIRECIONAL ONDIRR3-18,5013,30
5VIVARA ONVIVA3-16,8225,91
6EMBRAER ONEMBJ3-16,7476,95
7VAMOS ONVAMO3-15,103,72
8BRASIL ONBBAS3-14,4723,00
9COSAN ONCSAN3-14,475,38
10CYRELA REALT PNCYRE4-13,2425,29

Fonte: Valor Data

No primeiro trimestre do ano, o cenário não foi tão diferente.

Piores no primeiro trimestre de 2026

Class.PapelCódigoVariação (%)Cotação
1HAPVIDA ONHAPV3-31,4310,10
2SID NACIONAL ONCSNA3-29,196,33
3MINERVA ONBEEF3-26,224,25
4VIVARA ONVIVA3-22,0525,91
5SMART FIT ONSMFT3-17,5419,16
6TOTVS ONTOTS3-16,6234,94
7EMBRAER ONEMBJ3-13,1576,95
8CPFL ENERGIA ONCPFE3-8,5048,76
9SANTANDER BR UNITSANB11-8,4830,64
10CSN MINERACAO ONCMIN3-7,914,95

Fonte: Valor Data

Companhia Siderúrgica Nacional (CSNA3)

Entre os maiores tombos do Ibovespa em março (e no trimestre), a Companhia Siderúrgica Nacional (CSNA3) integra o pódio, com queda de 26,57% no mês e 29,19% no ano até agora. Benassi, da Monte Bravo, diz que a empresa sofre com um “mal de setor“, em razão da forte competição com o aço importado

No entanto, soma-se a isso o resultado considerado “ruim” no quarto trimestre, com forte queima de caixa e margens de resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (ebitda, na sigla em inglês) “próximos aos níveis da crise de 2016”.

Para a CSN, o cenário é agravado pela alta alavancagem: com juros elevados, o custo da dívida pesa ainda mais no balanço da empresa, ainda que ela tenha outros braços de negócio na holding.

Minerva (BEEF3)

A Minerva (BEEF3) viu suas ações despencarem após um balanço considerado decepcionante em todas as linhas, comenta Enrico Cozzolino, diretor estrategista da Zermatt Partners. Com um Ebitda de R$ 1,17 bilhão — abaixo do consenso de R$ 1,29 bilhão — e um lucro líquido atribuído aos acionistas (de R$ 93,3 milhões) que foi menos da metade das estimativas, que eram de R$ 190,9 milhões.

O papel caiu 18,58% em março e, no acumulado do trimestre, a desvalorização foi de 26,22%.

O diretor financeiro da companhia, Edison Ticle, foi enfático ao prever margens ainda mais difíceis para 2026. A empresa citou a redução da oferta de gado no Brasil o aumento dos custos de transporte devido à guerra no Irã como principais obstáculos, acrescenta Cozzolino.

Embraer (EMBJ3)

Nem mesmo a Embraer, que costuma se beneficiar do dólar alto, escapou. A queda foi de 16,74% em março e 13,15% no trimestre.

Apesar de notícias positivas recentes, como o acordo com a Finnair, o lucro líquido ajustado do quarto trimestre ficou aquém das projeções. Gastos financeiros elevados e tarifas nos EUA pesaram nas margens, detalha Cozzolino.

“Em 12 de março, as ações da Embraer caíram 7,5% para R$ 77,72 reais, o nível mais baixo em cinco meses”, diz o estrategista da Zermatt Partners.’ Mais recentemente, em 23 de março, a Embraer ganhou 3-4,5% após a Finnair assinar um acordo para comprar até 46 aeronaves E195-E2 , mas isso não tenha foi suficiente para compensar as perdas anteriores do mês”, detalha.

Análise da COSAN: Endividamento, Reestruturação Financeira e Incertezas da Raizen

Cosan (CSAN3)

A Cosan foi outra que sofreu em março, com recuo de 14,47% no mês (mas não integra o top 10 das quedas do trimestre). Ela enfrenta um cenário macroeconômico global preocupante (queda da atividade, inflação) que gera incerteza no mercado e impacta o setor, segundo Gustavo Bertotti, chefe de renda variavel da Fami Capital. Além disso, assim como a CSN, é uma empresa com alto endividamento e os juros altos da economia brasileira prolongados impactam a dívida da companhia.

Também entra nessa conta a incerteza na recuperação extrajudicial da Raizen, levantando dúvidas sobre a necessidade de aportes adicionais da Cosan na holding.

Apesar disso, o resultado do quarto trimestre apontou melhora significativa na dívida líquida, o que demonstra esforço de reestruturação financeira (alongamento de dívidas), na visão do chefe da Fami Capital. Para ele, o dever de casa está sendo feito, mas os desafios para melhora da percepção do mercado sobre o papel incluem a necessidade de investimento, incerteza sobre o retorno desses investimentos e recuperação da receita líquida.

MRV (MRVE3) e Direcional (DIRR3)

A queda recente dos papéis de MRV e Direcional se deve, em grande parte, à piora geral do mercado, especialmente após o início do conflito no Irã, levando a uma rotação para ativos mais seguros e à realização de lucros em papéis que tiveram valorizações expressivas em 2025, na avaliação de Fabiano Vaz, analista da Nord Investimentos. A Direcional, inclusive, figurou entre as maiores altas do Ibovespa no ano.

MRV caiu 23,14% só em março, enquanto a Direcional desvalorizou 18,50%.

Com a alta do petróleo pressionando a perspectiva de inflação global, há uma percepção de risco em relação a alta de custos das empresas do segmento de construção e incorporação. No entanto, do lado positivo, o analista enxerga o cenário para ambas como favorável devido às mudanças recentes no programa Minha Casa Minha Vida, com o aumento da renda da Faixa 4 e elevação do teto dos imóveis, o que aumenta o mercado endereçável.

Em relação aos balanços Vaz considera que a MRV entregou trimestre robusto e mostrou evolução na reestruturação. Por outro lado, a geração de caixa foi um ponto negativo, impactada pela falta de repasse de programas habitacionais.

Já a Direcional também entregou mais um trimestre positivo, com margem bruta acima de 40% e um retorno sobre o patrimônio líquido (Return on Equity, ROE, na sigla em inglês) de 44%, destacando-se nos segmentos populares, apesar de um consumo pontual de caixa.

Leia aqui a reportagem publicada no Valor Investe.