Sala de Imprensa
11/11/2025 • 3 mins de leitura
Resolução 179 da CVM completa um ano e acelera adoção do modelo “fee based” no Brasil
É um modelo que efetivamente reduz o risco de conflitos…

Se há uma década os antigos agentes autônomos eram tratados como meros prepostos de corretoras e distribuidoras de valores mobiliários, considerados “o patinho feio” da indústria, hoje essas estruturas cuidam de cifras bilionárias nas plataformas de investimentos às quais estão plugadas. Com a revisão regulatória que permitiu que escritórios se organizassem como grupos, as operações cresceram, passaram a cuidar de cifras bilionárias na casa de dois dígitos, e algumas se tornaram corretoras.
Dados compilados pelo Valor, em conversas recentes com executivos dos principais escritórios, e pelo consultor de investimentos Luiz Ricardo Casagrande Maciel, que esteve no grupo de formação da EQI, mostram que no pelotão de frente aparecem Fami Capital, união de Faros e Messem, com R$ 75 bilhões, a EQI Investimentos, hoje uma corretora em sociedade com o BTG, com R$ 51 bilhões, e a Blue3, com R$ 50,8 bilhões, após duas aquisições em sequência.
A Monte Bravo Corretora, ligada à XP, tinha R$ 45 bilhões, seguida por SVN (R$ 33 bilhões), InvestSmart (R$ 30 bilhões), Lifetime (R$ 25 bilhões), Manchester (R$ 23 bilhões), Alta Vista (R$ 16 bilhões), Ável e Criteria (com R$ 15 bilhões cada).
Executivos apontam a sua percepção da atividade de intermediação de investimentos e o que esperar para 2026, ano de provável queda de juros.
“Apesar das adversidades, a Fami continua crescendo, mês a mês”, diz Samy Botsman, sócio-fundador da Faros, que se uniu à Messem em abril de 2023, tendo a XP como sócia. Na ocasião, a companhia combinada tinha cerca de R$ 60 bilhões e, poucos meses depois os sócios desistiriam de montar uma corretora conjunta, cedendo à XP uma parcela menor do negócio, de 36%, ante os 42% acertados anteriormente.
“Quando houve a fusão, muita gente não acreditou no movimento de dois grandes [escritórios] se unindo, e havia aquela questão antiga, de quem viraria corretora ou não, qual modelo ia se sobressair.”
Mesmo sem estar debaixo de uma instituição financeira — e sem todas as exigências regulatórias que isso implicaria —, a Fami desenvolveu verticais de banco de investimento, de multifamily office (MFO) e de gestão de recursos. “Quando a gente começou 20 anos atrás, como assessor de produtos de investimentos, não imaginava aonde ia chegar e a quantidade de soluções que poderia apresentar ao cliente”, afirma Botsman.
Ao ter uma estrutura de originação, há uma gama de produtos exclusivos para levar para o cliente na ponta, acrescenta Mauro Silveira, CEO da Fami Capital, vindo da estrutura da Messem. “É assim que vai gerando captação, com nova alocação, e o cliente tirando dinheiro do banco e sendo competitivo com o produto bancário tradicional.” Ele cita que 30% das receitas do grupo já vêm de atividades extra-investimentos.
Tirando a valorização da carteira com juros, a Fami captou R$ 6 bilhões em 2025. “Não foi espetacular, mas frente ao que se viu, com muita saída para bancos no início do ano passado e no fim de 2024, a gente ficou feliz com o resultado”, afirma Botsman.
O executivo diz que hoje as taxas pagas pelos bancões já não estão tão atrativas, caindo da faixa de 96% do CDI para 90%. “Com a expectativa de queda de juros bem mais clara este ano, a tendência é que o fluxo volte a acelerar para corretoras e assessorias independentes.”
Silveira acrescenta que, com os bancos fechando agências e migrando o cliente para o atendimento, a assessoria permanece como um canal mais próximo. Num horizonte de 12 a 15 meses, Botsman estima chegar aos “sonhados” R$ 100 bilhões e, para isso, cogita movimentos de consolidação, não só de assessorias, mas também de consultorias e gestoras de fortunas.
Um atrativo para que essas conversas se acelerem é que, além de os profissionais passarem a fazer parte de uma organização mais bem estruturada, eles também têm a perspectiva de ascender na “partnership”, acrescenta Silveira.
“Muitas vezes uma operação menor não tem uma perspectiva de valorização do ‘equity’ e de geração e distribuição de dividendos. Isso acabou se tornando um grande ativo, que também ajuda na cultura e no alinhamento.”
Nascida em Franca (SP), a Blue3 começou 2026 com o anúncio da aquisição da All Investimentos, escritório de assessoria com cerca de R$ 3,5 bilhões, após ter fechado em dezembro a compra da Squad. Chegou assim a R$ 50,8 bilhões na custódia da XP, plataforma a qual está plugada e também tem um acordo societário.
No ano passado, o crescimento do total de ativos foi de 50%, sendo R$ 5 bilhões em captação líquida e o restante decorrente da valorização dos ativos nas carteiras do cliente. “Foi um ano desafiador, porque, com juro a 15%, tirar dinheiro do Itaú [dos grandes bancos, em geral] não é fácil”, diz Wagner Viera, sócio e CEO do grupo Blue3.
Só no braço de gestão de fortunas, na Troon Capital, adquirida em 2023 e que atende patrimônios acima de R$ 20 milhões, a captação foi de R$ 2,5 bilhões, chegando a R$ 7 bilhões. O escritório tem base na Faria Lima, corredor financeiro de São Paulo, e esta já é a praça que mais cresce. Contribuiu com R$ 13 bilhões do bolo de captação, apesar da concorrência, com mais de “200 escritórios da XP ali”, diz Vieira. “É quase impossível você sair do interior, ir para São Paulo e ganhar peso.”
Além de outras aquisições selecionadas, Vieira planeja atrair mais 100 profissionais para o grupo neste ano, com 600 só na frente comercial. A administração vai colocar de pé uma consultoria de valores mobiliários, para atender o cliente na totalidade do patrimônio, não só na XP, além de uma divisão de planejamento financeiro. “É importante ter múltiplos canais, no longo prazo é uma estratégia de sobrevivência forte”, diz Vieira.
Como corretora estabelecida, a Monte Bravo busca mais autonomia para escolher o que efetivamente distribui aos seus clientes, com braços de consultoria ou de gestão de patrimônio ganhando força no grupo. Tem sido a mais ativa na migração de clientes para o modelo de “fee based”, em que a remuneração pelo serviço de aconselhamento é paga pelo cliente e não por comissões vindas da distribuição.
“A Monte Bravo não participa mais de campanhas, a relação é de sociedade [com a XP], a prestação de serviços não é mais como a de um agente autônomo plugado. Nosso crescimento é direcionado totalmente fora disso”, diz Filipe Portella, cofundador e executivo-chefe (CEO) da companhia.
Com cerca de 200 assessores de investimentos na sua rede, até o fim de 2030 o plano é chegar a 450 a 500 profissionais, com um orçamento agressivo, de cerca de R$ 300 milhões.
“Temos oito profissionais com mais de R$ 1 bi em carteira, quase a integralidade no ‘fee’ [fixo], já alinhado com o cliente. Imagina ter 400 banqueiros com meio bilhão cada”, continua Portella. “É transformacional para a Monte Bravo e o mercado inteiro. É para onde mercado vai, não tem o que fazer, não vale a pena brigar.”
Depois de encerrar 2024 no prejuízo, no seu primeiro ano como corretora, em 2025 a instituição já fechou no lucro. Só a gestora de patrimônio atraiu R$ 1 bilhão em dinheiro novo. No conjunto, foram R$ 2 bilhões. “Acho que 2026 vai ser mais desafiador porque tem eleições e Copa, mas estamos confiantes pelo que vem pela frente, é um projeto que independe do mercado, é uma proposta nova de trabalho.”
O plano da Monte Bravo é atingir R$ 200 bilhões em cinco anos, podendo migrar do modelo “light”, em que a guarda dos ativos e a retaguarda operacional permanecem com a XP, para uma corretora “full”, dona da própria custódia.
“Com o tamanho que tem, já daria para fazer, mas estamos no caminho da independência e mais alinhado com o cliente. Se precisar, vamos ter uma corretora ‘full’, mas não é o determinante. A autonomia de produtos e serviços e o modelo ser ‘fee based’ são o principal.”
Após adquirir a Ficus Capital, assessoria com atuação em Ribeirão Preto (SP) e Belo Horizonte (MG), em outubro, outros movimentos de consolidação podem ocorrer na Manchester Investimentos, diz Henrique Baggenstoss, CEO do escritório.
No ano passado, o patrimônio sob assessoria cresceu mais de 30%. O plano é fechar 2026 com cerca de R$ 30 bilhões, só contando com a expansão orgânica.
“A captação líquida tem sido de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões por mês; se mantiver este ritmo é super factível”, diz. “Temos conseguido crescer de forma sustentável e consistente, sem depender das grandes boletas.”
Em maio do ano passado, a XP selou aquisição de participação minoritária no escritório. Tinha então cerca de R$ 16 bilhões sob assessoria.
A segunda maior operação que nasceu do universo dos agentes autônomos, a EQI reconstruiu sua base do zero ao mudar da XP para o BTG Pactual, em 2021, quando tinha cerca de R$ 9 bilhões, e foi adiante com o plano de se tornar corretora.
Apesar dos juros nas alturas, 2025 foi um bom ano para a EQI Investimentos, que conseguiu cumprir o orçamento de captação líquida, receitas e aumento de margens, diz Mauricio Daoud, diretor de expansão. Houve um incremento de 35% nos ativos totais, com a valorização da carteira representando 12% do bolo até novembro.
Para o executivo, 2026 é uma incógnita, porque, mesmo com a Selic caindo, como se espera a partir deste mês, as taxas permanecerão elevadas e há um combo de Copa do Mundo, muitos feriados no calendário e eleições que vão esquentar mais cedo do que o normal.
A expectativa é crescer mais 30% neste ano. Um dos canais que devem ganhar relevância é o “B2B”, em que a EQI conecta outras assessorias de investimentos à plataforma que está, por sua vez, plugada à do BTG.
Com cinco anos de parceria com o BTG Pactual, após ter migrado da rede XP, a Lifetime tem conseguido incrementar a carteira ano a ano, diz Fernando Katsonis, CEO do escritório. A carteira teve um crescimento de R$ 6 bilhões em 2025, sendo R$ 4 bilhões de captação líquida, chegando a R$ 30 bilhões no total. Para 2026, o plano é adicionar mais R$ 10 bilhões e, no tempo, atingir a marca de R$ 100 bilhões.
O projeto de montar uma corretora com o BTG com 49% do capital segue de pé, segundo o executivo, embora a revisão regulatória da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a resolução 178, tenha permitido sócios capitalistas na própria atividade de assessoria.
“A corretora nos dá um instrumento de atuação muito mais amplo, diz Katsonis. “A gente gosta de crescimento constante, sem muito barulho, vai degrau a degrau, mas quando ganhar tração, vai atrás deste plano.”
O executivo diz ver o mercado de MFO ficando “meio órfão”, em meio a movimentos de aquisição, com Julius Baer e a gestora de patrimônio da JGP compradas pelo BTG no ano passado, e a incorporação da Vita pela Turim.
“A gente gosta muito da ideia [de consolidar], seria um passo importante no tempo para acelerar o plano de crescimento”, diz Katsonis. Ele cita que, para a Lifetime, fariam sentido operações com volumes de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões, porque, nas muito pequenas, o aproveitamento é mais limitado ao capital humano.
Leia aqui a reportagem publicada no Valor Econômico.