Monte Bravo Analisa — Resultado Sabesp 2T26

14/08/2026 • 4 mins de leitura

A Sabesp reportou seus resultados do 2º trimestre de 2026 na noite de quarta-feira (12).

Os números da companhia vieram fracos e abaixo do esperado pelo consenso de mercado, com destaque negativo para o forte aumento das despesas operacionais. O EBITDA ajustado e o lucro vieram, respectivamente, 7% e 23% abaixo do esperado.

As ações da companhia (SBSP3) reagiram com queda de 7% no pregão de ontem (13), acumulando cerca de 22% de desvalorização em um mês.

Entendemos a reação do mercado. No entanto, a leitura relevante não está no trimestre reportado, mas sim em como a administração detalhou na teleconferência desta manhã: o 2T26 não foi o pico de pressão de custo, e sim o começo dela.

As Receitas Líquidas atingiram R$ 6,0 bilhões (+6,7% a/a), sustentadas pelo reajuste tarifário de 9,9% aplicado em janeiro e pela remoção de descontos históricos concedidos a grandes clientes. O crescimento foi menor do que poderia por dois motivos: (i) o volume faturado avançou apenas 0,8% a/a, prejudicado por temperaturas em média 1,1°C mais baixas e pela gestão noturna de pressão da rede; e (ii) o mix de clientes retirou 3,1% da receita, refletindo a migração de famílias para as tarifas sociais. Na prática, a companhia recebe o reajuste no papel e não o recebe integralmente na fatura, sendo que essa perda só será recomposta nos próximos ciclos tarifários.

O ponto central do trimestre foi o salto de 24,5% a/a nos Custos, Despesas Administrativas e Comerciais. A linha de Serviços subiu 39% a/a, com R$ 150 milhões destinados à melhoria do atendimento ao cliente — novo fornecedor de call center com 120 posições adicionais, novas agências, expansão nos Poupatempos e ações de comunicação — e R$ 54 mi de despesas antecipadas pela troca do sistema de gestão.

Materiais de tratamento praticamente dobraram, com a companhia atribuindo R$ 28 mi à alta do petróleo, que encareceu em cerca de 15% a cadeia de insumos químicos importados. As Despesas Gerais saltaram de R$ 15 mi para R$ 157 mi, mas aqui o efeito é de base de comparação, já que o 2T25 havia registrado R$ 230 mi em reversões de provisões judiciais.

O detalhe mais relevante da teleconferência foi o cronograma do plano comercial. Do total de R$ 800 mi previstos para 2026, apenas R$ 150 mi foram gastos no 2T26. Os R$ 600 mi restantes serão desembolsados integralmente no segundo semestre, divididos entre o 3º e o 4º trimestres, ou seja, aproximadamente o dobro do ritmo atual em cada um deles. Quem estiver esperando recuperação de margem já no 3T26 deve se preparar para o contrário.

Sobre pessoal, a despesa ficou estável na comparação anual e a companhia orientou o mercado a não tratar o aumento de 40% ante o 1T26 como recorrente, atribuindo-o a timing de provisões de benefícios trabalhistas. Em nossas contas, porém, nos parece que os números do 2T26 deveriam ser considerados o normalizado, enquanto os do 1T26 foram uma exceção que não deveria se repetir. Não esperamos, portanto, recuperação relevante nessa linha no próximo trimestre.

Isso não significa que a eficiência com mão de obra acabou: o quadro caiu perto de 4% ao ano (vs. dissídio de 4,4%). A folha cresce cerca de 0,5% nominal enquanto a receita cresce de 7% a 9% — o que continua diluindo aproximadamente 0,8 ponto de margem por ano.

Com receita crescendo menos e custos crescendo mais, o EBITDA ajustado somou R$ 3,50 bi (-3% a/a), com a margem recuando de 64,2% para 58,3%. Ajustando pelos itens que efetivamente não se repetem, chegamos a uma margem normalizada entre 61% e 62% neste trimestre e trabalhamos com a faixa de 60% a 62% em regime, contra o pico de 64%.

Para 2026, projetamos EBITDA ajustado entre R$ 14,2 e R$ 14,4 bi, com o segundo semestre pior que o primeiro por conta do cronograma do plano comercial.

No trimestre, o Capex atingiu R$ 3,7 bi, uma alta de apenas 4% a/a, acumulando R$ 7,5 bi no semestre. Nos chamou atenção que a administração passou a se referir aos R$ 20 bi como um alvo a ser perseguido, e não como um compromisso, respondendo às perguntas com métricas de atividade: R$ 40 bi em obras contratadas, intenção de contratar mais R$ 20 bi em nove meses e passagem de 200 para 400 frentes de obra simultâneas até o fim de 2027. Lemos isso como uma suavização do guidance sem corte formal, e seguimos vendo risco de o número final ficar abaixo. Para quem modela a base de ativos, ficou o dado de que dois terços do Capex do ano devem ser incorporados ao ativo regulatório ainda em 2026, com um terço permanecendo como obra em andamento.

O Fator U — mecanismo regulatório criado pela agência reguladora para incentivar a universalização do saneamento e garantir que a companhia cumpra metas de expansão e qualidade — segue sendo o destaque positivo. Em julho, a Sabesp já havia atingido 105% da meta anual de novas ligações de água, 90% de coleta de esgoto e 82% de tratamento, com seis meses de antecedência. O cumprimento dessas metas é importante porque permite os reajustes tarifários estabelecidos e protege a distribuição de proventos.

Do lado da inadimplência, a companhia indicou 2,0% da receita líquida como patamar estrutural de longo prazo (vs. 4,0% antes da privatização) e reconheceu que os 1,4% do trimestre anterior não eram sustentáveis. Como o semestre já roda em 1,8%, deixamos de tratar essa linha como fonte de ganho adicional.

Para os próximos meses, dois eventos merecem acompanhamento: (i) a metodologia da ARSESP para reconhecimento anual dos investimentos deve ser publicada até o fim do terceiro trimestre, definindo como o Capex acelerado entra na base remunerada; e (ii) o leilão de novas concessões no estado de São Paulo, que deve reunir mais de 140 municípios, está previsto para o primeiro trimestre de 2027.

No curto prazo, vale lembrar que a interligação entre a Billings e o sistema Alto Tietê, um investimento de R$ 1,4 bi, fica pronto apenas no terceiro trimestre de 2027. Assim, a gestão noturna de pressão segue como principal alavanca de segurança hídrica e o volume faturado deve continuar pressionado.

Continuamos construtivos com a tese de Sabesp, ainda que com um horizonte de retorno mais longo do que imaginávamos. Enxergamos a companhia negociando com níveis de retorno projetados interessantes, graças a uma série de fatores: (i) alternativas relevantes de crescimento inorgânico; (ii) continuidade da aceleração dos investimentos na atual concessão, com entrega de metas de universalização acima do combinado; e (iii) recomposição das perdas de tarifa social e reconhecimento dos investimentos nas próximas revisões tarifárias.

No curto prazo, porém, o investidor precisa estar preparado para dois trimestres de margem ainda mais pressionada antes que a normalização apareça em 2027.

Sabesp (SBSP3) — Compra

Preço Alvo35,00
Preço Atual24,28
Upside44%
Capitalização de Mercado (R$ bi)85
Ações Emitidas (mi)683
Free Float67%

Performance

Semana-10,96%
Mês-20,05%
Ano-8,62%

Análise por Bruno Benassi, CNPI 9236, Analista de Ativos da Monte Bravo Corretora, CNPJ 50.489.148/0001-00.

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