Monte Bravo Analisa — Resultado Mercado Livre 2T26

06/08/2026 • 5 mins de leitura

O Mercado Livre divulgou seus resultados referentes ao 2T26 na noite desta quarta-feira (05).

Os números vieram fortes na ponta de receita e em linha a levemente acima das nossas estimativas e do consenso de mercado em EBIT. No entanto, a composição do resultado voltou a chamar atenção: a margem bruta veio abaixo do que nós e o mercado projetávamos, compensada por uma disciplina de despesas melhor do que a esperada e, principalmente, por uma NIMAL bem mais forte do que nós e as demais casas estávamos esperando.

A reação inicial do papel na negociação após o encerramento do pregão foi negativa. Essa nos parece uma leitura apressada diante da qualidade do resultado e não enxergamos motivo para revisões relevantes de estimativa a partir daqui.

A companhia reportou receita líquida total de US$ 10,17 bilhões, crescimento de 50% na comparação anual, 43% em câmbio constante, a maior taxa de expansão em quatro anos. O EBIT somou US$ 683 milhões, praticamente em linha com as nossas estimativas e com o consenso do mercado, com margem de 6,7% (-5,4 p.p. a/a), mas estável na comparação sequencial (6,9% no 1T26).

Vale registrar que uma parte da pressão de margem do trimestre foi pontual: a companhia mencionou na teleconferência de resultados um efeito não recorrente relacionado à reestocagem de terminais de adquirência no México (algo entre US$ 20 e 40 mi), o que — se excluído — deixaria o EBIT ainda mais próximo do patamar de 7% que consideramos como um benchmark razoável para a companhia neste momento do ciclo de investimentos.

No segmento de comércio eletrônico, o GMV acelerou para US$ 21,9 bi (+ 44% a/a em dólares e 36% em câmbio constante). A leitura em moeda constante é a que seguimos usando como referência principal, dado o ruído cambial de Argentina e Brasil.

O destaque segue sendo o Brasil, com GMV em câmbio constante de 39% a/a, acelerando frente ao trimestre anterior e reforçando nossa visão de que os investimentos em redução do piso de frete grátis, iniciados há um ano, estão gerando o resultado esperado. O número de compradores únicos avançou 25% a/a, para 89 mi, com itens por comprador subindo consistentemente. No Brasil, especificamente, o crescimento de itens por comprador foi de 19% a/a.

A venda direta ao consumidor (1P) seguiu crescendo em ritmo muito superior ao marketplace tradicional (3P), com alta de 80% a/a (vs. 42% do 3P), ainda que a participação sobre o GMV total permaneça baixa (aproximadamente 7%). O take rate consolidado do 3P se manteve estável na casa dos 21%, com a queda pontual no Brasil (relacionada aos descontos de PIX e à estratégia de competitividade de preços) sendo compensada por publicidade — que segue sendo o motor de monetização mais relevante do negócio.

A receita de anúncios (Ads) cresceu 62% a/a em câmbio constante, já representando cerca de 2,8% do GMV. O comércio internacional, conhecido como cross-border trade (vendas realizadas por vendedores estrangeiros, sobretudo da China, diretamente para compradores latino-americanos através da plataforma) também segue como vetor de crescimento, com um GMV crescendo 60% a/a em câmbio constante, puxado pelo centro de fulfillment na China.

No braço financeiro, o TPV total atingiu US$ 101 bi (+56% a/a tanto em dólares quanto em câmbio constante). Dentro disso, o TPV de adquirência somou US$ 64 bi (+42% em câmbio constante), com destaque para o Brasil, que acelerou de 26% para 32% a/a puxado por grandes contas no canal online. Esse é um movimento que reduz o take rate médio, mas que é positivo em dólares absolutos de receita e lucro. O take rate de serviços financeiros seguiu com leve compressão (-0,19 p.p. a/a, para 3,3%), reflexo natural do mix mais pesado em adquirência de grandes contas.

O portfólio de crédito encerrou o trimestre em US$ 16,4 bi (+75% a/a), puxado principalmente pela expansão do cartão de crédito, que já representa cerca de 47% da carteira total. A companhia emitiu 2,6 milhões de novos cartões no trimestre, ritmo bem acima dos 1,6 milhão registrados no 2T25. Esse crescimento acelerado do cartão segue pressionando a rentabilidade específica do produto no curto prazo: a NIMAL do cartão ficou negativa em 2,5%, ante equilíbrio (breakeven) um ano atrás, mas isso reflete puramente o efeito de safras novas ainda imaturas  — a companhia reconhece a provisão de perda esperada já na emissão do cartão, enquanto a receita só se acumula conforme o cliente passa a usar e rotativar o limite —, e não de deterioração de crédito.

A NIMAL, sigla para Margem Financeira Líquida Após Perdas, mede o spread que a operação de crédito gera ao descontar da receita de juros o custo de captação e a provisão para devedores duvidosos, tudo dividido pela carteira média de empréstimos. É a métrica mais direta para avaliar se o crescimento da carteira de crédito está sendo rentável ou apenas comprando volume, por isso a acompanhamos de perto a cada trimestre. Nesse sentido, a NIMAL consolidada surpreendeu bastante positivamente, saindo de 17,8% no 1T26 para 20,7% no 2T26, um patamar bem acima do que projetávamos e do que o mercado vinha modelando, puxada pela normalização das provisões na carteira de Crédito Pessoal no Brasil. Os indicadores de inadimplência seguem próximos das mínimas históricas: NPL de 15 a 90 dias em 7,0% (melhora sequencial de 1 p.p.), tanto no consolidado quanto especificamente no cartão (4,6%), com cobertura de provisão estável.

A gestão segue enfaticamente confiante quanto à qualidade da carteira, inclusive no Brasil, apesar do ambiente de juros mais altos por mais tempo no país — que era justamente um dos principais receios dos investidores em relação a este resultado.

Um ponto que consideramos central na tese, e que a companhia reforçou bastante na carta deste trimestre, é o poder do ecossistema: usuários que utilizam tanto o comércio eletrônico quanto os produtos financeiros (usuários “ecossistêmicos”) geram 70% mais GMV e 55% mais itens vendidos por usuário do que um usuário que compra apenas no marketplace. No lado financeiro, o TPV por usuário ecossistêmico é quase 90% maior e o patrimônio sob gestão (AUM) por usuário mais que dobra. Mais importante: a lucratividade não soma, ela multiplica. O lucro de contribuição de um usuário ecossistêmico é superior à soma do lucro gerado por um usuário só de marketplace com um usuário só de serviços financeiros. Esse é, na nossa visão, o principal argumento estrutural por trás da estratégia da companhia de continuar investindo agressivamente em engajamento mesmo à custa de margem no curto prazo, e explica por que consideramos a queda de rentabilidade atual como um investimento e não uma erosão de competitividade.

O Mercado Livre continua em fase de expansão estrutural, combinando crescimento acelerado de receita, fortalecimento das métricas operacionais e avanço relevante em crédito — ainda que com margens pressionadas por investimentos estratégicos.

Não é a primeira vez que a Meli troca um pouco de margem por crescimento, mercado massacrou eles quando resolveram abandonar os Correios e criar logística proprietária. Mais uma vez, os indicadores por trás da decisão (engajamento, ecossistema, qualidade de crédito) seguem nos parecendo consistentes com uma escolha correta de alocação de capital. Vamos continuar acompanhando de perto a evolução da NIMAL do cartão nos próximos trimestres, pois esta é a principal variável que deve determinar o momento da inflexão de margem esperada para o segundo semestre.

Mercado Livre (MELI34) — Compra

Preço Alvo BBG (R$)120
Preço Atual (R$)81,67
Upside47%
Capitalização de Mercado (US$ bi)97,5
Ações Emitidas (mi)51
Free Float100,00%

Performance

Semana+3,09%
Mês+1,80%
Ano-9,30%

Análise por Bruno Benassi, CNPI 9236, Analista de Ativos da Monte Bravo Corretora, CNPJ 50.489.148/0001-00.

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