Monte Bravo Analisa — Resultado JBS 2T26

11/08/2026 • 4 mins de leitura

A JBS divulgou na noite desta segunda-feira (10) seus números referentes ao 2º trimestre de 2026.

Os números ficaram ligeiramente acima de nossas projeções, com destaque para a operação de bovinos nos Estados Unidos, que apresentou uma margem ligeiramente melhor do que esperávamos. Os últimos dias têm sido movimentados para a companhia e, por isso, vamos aproveitar o resultado para atualizar todos os pontos. 

Assim como nos trimestres anteriores, a comparação com o consenso segue complexa por conta das diferenças contábeis entre IFRS e US GAAP.  Nós mantemos a estratégia mista de leitura que temos adotado: (i) números grandes em IFRS; (ii) comparação entre as unidades de negócio no padrão contábil do país da operação, com exceção da Austrália (que seguimos olhando em US GAAP); e (iii) atenção redobrada na geração de caixa, pois caixa é caixa independentemente do padrão contábil adotado.

Os últimos dias trouxeram dois anúncios relevantes além do resultado. O primeiro foi a sucessão na presidência: Wesley Batista Filho, atual CEO da JBS USA, assume como CEO global em janeiro de 2027 no lugar de Gilberto Tomazoni, que passa ao cargo de vice-presidente do Conselho. A ação reagiu mal ontem. Enxergamos a troca como natural e sem implicação relevante de estratégia, já que o executivo tem 15 anos de casa e passou pelas principais unidades do grupo.

A companhia também informou que fechou parceria com o fundo soberano da Indonésia, que investirá US$ 2,5 bilhões por 25% de uma holding que reunirá as operações de Austrália e Nova Zelândia, sendo US$ 800 milhões no fechamento e o restante em até três anos. As duas tranches implicam avaliação de aproximadamente US$ 7,5 bi para o ativo antes do aporte, entre 9,5-10 X EV/EBITDA anualizado da unidade, enquanto a JBS negocia hoje a algo próximo de 5,5 vezes EV/EBITDA.

Ou seja, a companhia acaba de vender uma fatia de um de seus ativos por praticamente o dobro do múltiplo em que o mercado precifica o grupo inteiro — a melhor referência de valor que a tese ganhou em muito tempo. Duas ressalvas: (i) os recursos são carimbados para aquisições na Indonésia e no Sudeste Asiático, ou seja, não desalavancam a holding; e (ii) há um mecanismo que dá participação adicional ao fundo (até 30%) caso o EBITDA médio de 2026 e 2027 fique abaixo do registrado em 2025 — gatilho que já corre contra a companhia, com o EBITDA da Austrália 19% abaixo no semestre.

Entrando nas unidades, a JBS Beef nos EUA voltou a apresentar EBITDA negativo, em US$ 100 milhões, mas com margem de -1,3% (vs. -3,9% no 2T25 e -3,2% 1T26). Foi o principal destaque frente às expectativas. A companhia anunciou o fechamento das plantas de Souderton e Memphis e a fusão das estruturas de Fed Beef, Regional Beef e Case Ready, medidas que ajudam na eficiência.

Ainda assim, ficamos com uma dúvida honesta: o ciclo do gado americano não deu sinais de virada, os custos de reposição seguiram subindo acima do cutout (proxy para receita da operação) e uma melhora dessa magnitude destoa do que a indústria mostrou. Parte do resultado pode ter vindo de itens não caixa, como hedges via derivativos. A retomada das importações de gado mexicano a partir de 24 de agosto alivia a oferta, mas não resolve o ciclo.

A Pilgrim’s já havia reportado seus números semanas atrás, com poucas informações novas. A companhia registrou margem de 7,8% (vs. 14,4% no 2T25), com uma queda explicada pela base recorde do ano anterior, mas com melhora sequencial. A operação de suínos nos EUA manteve rentabilidade dentro da faixa histórica, com margem de 8,9% — contra 6,5% um ano antes, ainda que tenha desacelerado frente ao primeiro trimestre. A Austrália entregou margem de 8,5% mesmo com o custo do gado subindo 24% no ano, o que mostra repasse funcionando, mas com colchão bem mais fino do que os 12,7% do ano passado.

No Brasil, a Seara segue como o destaque mais limpo, com receita crescendo 18% e margem EBITDA de 14,9%, patamar saudável para um trimestre de custos menos favoráveis — ainda que abaixo dos 18,1% do ano anterior. A operação de bovinos no Brasil foi a única a crescer EBITDA no ano, alta de 17,8% e margem de 5,9%, mesmo com a arroba média subindo 12%, para R$ 353. Aqui fica a ressalva: boa parte veio do preenchimento da cota chinesa e de iniciativas ligadas à Copa do Mundo, o que deixa a sustentação desses números no terceiro trimestre em aberto.

A geração de caixa é onde continuamos vendo o ponto de atenção. O fluxo de caixa livre do trimestre foi positivo em US$ 130 mi, contra uma queima de US$ 55 mi no 2T25. No entanto, a melhora veio inteiramente de capital de gir, e de uma linha específica: a liberação de US$ 352 mi em recebíveis, que a própria companhia atribui a maior desconto de recebíveis e a adiantamentos de clientes chineses. Excluindo essa liberação, o fluxo de caixa livre teria sido negativo em cerca de US$ 220 mi.

A explicação está no Capex. Os investimentos atingiram US$ 613 mi no trimestre (+36%) e US$ 2,56 bi em 12 meses (vs. US$ 1,56 bi no período anterior). A companhia saiu de um ciclo de manutenção para um de expansão, e esse esforço ainda não aparece em EBITDA. Vale reconhecer que a queima do primeiro semestre é sazonal, já que o segundo semestre concentrou 88% do caixa operacional de 2025.

A alavancagem encerrou em 3,10X (vs. 2,77X no 1T26 e 2,27X no 2T25), acima da meta da companhia. O perfil de passivo segue confortável, com prazo médio de 15,3 anos, custo de 5,7% ao ano e liquidez de US$ 7,7 bi.

Seguimos construtivos com a JBS no longo prazo e mantemos a recomendação de compra. Em nossa opinião, a tese não mudou e se apoia em: (i) plataforma diversificada por proteína e geografia, que sustentou o resultado mesmo com bovinos nos EUA no fundo do ciclo; (ii) múltiplo descontado; e (iii) maturação dos investimentos dos últimos anos.

Apesar disso, continuamos vendo os próximos trimestres como mais desafiadores. Enxergamos que: (i) entendemos que o ciclo pecuário nos EUA parece estar em uma fase morosa; (ii) esperamos pressões de margens na Seara; (iii) cotas de exportações de bovinos foram atingidos no Brasil e o ciclo parece estar virando; e (iv) ciclo virando na Austrália.

JBS (JBSS32) — Compra

Preço Alvo95,00
Preço Atual68,91
Upside38%
Capitalização de Mercado (R$ bi)80
Ações Emitidas (mi)1.109
Free Float51,0%

Performance

Semana-1,61%
Mês+13,69%
Ano-10,81%

Análise por Bruno Benassi, CNPI 9236, Analista de Ativos da Monte Bravo Corretora, CNPJ 50.489.148/0001-00

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