Análise de Empresas
17/07/2024 • < 1 minuto de leitura
Análise de Empresas — Relatório de Produção Vale 2T24
A Vale divulgou na noite de terça-feira (16) sua prévia…
O Bradesco reportou na noite desta quarta-feira (05) seus resultados referentes ao 2º trimestre de 2026.
Consideramos que os números do banco foram mistos e essencialmente em linha com nossas estimativas e o consenso do mercado. Apesar disso, o mix foi diferente do que vínhamos vendo: a margem financeira surpreendeu positivamente, enquanto comissões e seguros ficaram um pouco aquém e a qualidade da carteira, principalmente pelo lado da cobertura, deu sinais de que merece mais atenção daqui para frente.
A Carteira de Crédito Expandida cresceu 11,6% na comparação anual, já acima do teto do guidance de 8,5% a 10,5% dado pelo banco para o ano. O crescimento segue puxado por Pessoa Jurídica, com destaque para MPME e para linhas com garantia, como FGI, FGO e imobiliário, que o banco tem priorizado na originação. Pessoa Física voltou a crescer num ritmo bem mais tímido (+8,4% a/a), reforçando que o apetite do banco por crédito segue seletivo.
As margens com clientes cresceram 13,8% a/a, beneficiadas por maior volume médio e melhora no funding, e a margem com mercado praticamente triplicou, partindo de base baixa. A Margem Financeira Total avançou 15,7% a/a. Do lado ruim, a despesa de PDD subiu 22,6% a/a, bem acima da receita, fazendo a margem ajustada ao risco crescer bem menos (+9,9% a/a), sinal de que o custo do crescimento mais acelerado da carteira está aparecendo com mais força.
As comissões cresceram apenas 1,7% a/a, abaixo do que vínhamos vendo em trimestres recentes, com cartões e conta corrente praticamente parados e mercado de capitais em queda, compensados em parte por custódia e fundos. O braço de seguros entregou lucro de R$ 2,9 bilhões (+28% a/a), puxado principalmente pelo resultado financeiro. A sinistralidade e o índice combinado subiram de leve, mas seguem em patamar que o próprio banco classifica como controlado.
Na qualidade de crédito, a inadimplência acima de 90 dias subiu para 4,3%, com o Estágio 2 também em alta no trimestre. O ponto que mais nos chamou atenção foi a cobertura da carteira em atraso, que caiu de 178% no 2T25 e 161% no 1T26 para 152% agora, uma queda relevante em pouco tempo mesmo com a PDD crescendo forte.
Este tipo de combinação — cobertura caindo justamente com PDD subindo forte — normalmente pede cautela adicional. Do lado positivo, vale registrar que 93% da carteira segue classificada nos estágios 1 e 2 (+0,7 p.p. em 12 meses) e que o ativo problemático, estágio 3, caiu R$ 5,5 bi no mesmo período. O estoque de risco mais grave vem diminuindo, mesmo com a cobertura mais apertada, o que qualifica um pouco a preocupação do parágrafo acima.
Do lado das despesas, o banco segue entregando o que promete: pessoal e administrativas cresceram 5,0% a/a, abaixo da inflação de receitas, e o índice de eficiência melhorou para 46,5% (-3,4 p.p. a/a), dando continuidade ao processo de transformação que já vínhamos destacando.
Sobre capital, vale separar dois movimentos de natureza bem diferente dentro da mesma estratégia. O primeiro é a proposta de aumento de capital de até R$ 10 bi, que lemos como reforço defensivo mesmo: capital novo, que tende a diluir um pouco o retorno sobre patrimônio no curto prazo até ser alocado, mas que dá fôlego para o banco seguir financiando o crescimento de carteira — já acima do teto do guidance — sem esbarrar em limite regulatório, justamente em um momento em que a própria empresa reconhece um ambiente de crédito mais desafiador.
O segundo movimento é diferente e — em nossa visão — mais interessante para a tese de médio prazo. Em abril, o banco concluiu a combinação da sua operação de saúde com a Odontoprev, hoje rebatizada Bradsaúde, com os ativos remarcados a valor de mercado por um comitê independente. Essa remarcação já aparece como linha própria, “Efeito Bradsaúde”, na movimentação do Índice de Capital Nível I no trimestre, com um “Efeito Complementar Bradsaúde” ainda pendente de aprovação regulatória. Ao somar esse complementar à oferta de R$ 10 bi, o Capital Principal pro forma vai a 13,6%, ante 11,3% reportado.
Diferente do aumento de capital, aqui não entra dinheiro novo, a operação reconhece a valor de mercado de um ativo que já era do banco mas não estava totalmente refletido no balanço. Isso também deve facilitar a monetização de crédito tributário ligado à operação de saúde daqui para frente. Se isso se confirmar, o caminho até o ROE é diferente do capital aportado: não é diluição buscando escala, mas sim alíquota efetiva mais baixa e capital de melhor qualidade, o que pode sustentar um payout maior sem pressionar o índice de capital no médio prazo. Vale lembrar que parte desse ganho é evento não recorrente de reorganização societária, e não geração orgânica de capital.
Batendo as cinco métricas do guidance contra o realizado no semestre, o quadro fica mais claro do que parece à primeira vista. A carteira de crédito cresceu 11,6% a/a, acima do teto de 10,5%. O resultado de seguros subiu 14,1% no semestre, bem acima do teto de 8%. Receitas de prestação de serviços cresceram 3,9%, dentro da faixa, perto do meio. As despesas operacionais subiram 5,5%, abaixo até do piso de 6%, o que é positivo. Ou seja, duas das cinco métricas já romperam o teto da faixa anual no meio do ano, e mesmo assim o banco optou por manter tudo sem alteração. Achamos que isso tende a ficar mais difícil de sustentar se esse ritmo continuar no segundo semestre, e não descartamos uma revisão de guidance já no 3T26.
No fim, achamos que sim, o banco está entregando o que prometeu, e em algumas frentes um pouco além disso. O ROE do Bradesco subiu pelo décimo trimestre seguido, enquanto a eficiência do banco melhora mais rápido do que o próprio ritmo do guidance sugeria e as despesas seguem abaixo do piso da faixa anual. O lado que ainda não fechou a conta é a qualidade de crédito: cobertura caindo e Estágio 2 subindo são o preço que o banco está pagando para crescer sua carteira acima do teto do guidance, e é essa variável que vai decidir se a entrega continua limpa ou passa a exigir mais provisão.
Sobre valor de longo prazo lemos os dois movimentos de capital como parte da mesma lógica: destravar valor contábil que já existia, via Bradsaúde, e garantir funding para não parar de crescer, via aumento de capital. Se o ROE seguir subindo com esse capital mais bem aproveitado, o valor patrimonial por ação tende a crescer de forma mais consistente do que vinha crescendo até pouco tempo atrás — quando boa parte do patrimônio estava represada em ativos de baixa qualidade. O banco negocia hoje a cerca de 1,1x o valor patrimonial (R$ 18,05 sobre um VPA de R$ 16,58), um múltiplo que não parece caro para um ROE de 16,2% e ainda em trajetória de alta, mas também não é um desconto óbvio que por si só justifique posição, pois o mercado já está dando algum crédito à recuperação.
As dúvidas que temos para a trajetória de ROE nos próximos trimestres são basicamente três. São elas: (i) se a cobertura de crédito estabiliza ou segue cedendo com a carteira crescendo nesse ritmo; (ii) se as comissões voltam a crescer de forma mais consistente, hoje é a linha mais fraca do resultado e não pode ficar estagnada indefinidamente sem pesar na receita total; e (iii) se o ganho de capital via Bradsaúde de fato se converte em alíquota efetiva mais baixa e mais payout adiante, ou fica só no papel do índice de capital.
Mantemos nossa recomendação neutra para as ações do Bradesco (BBDC4). Apesar disso, estamos muito mais construtivos para a tese.
| Preço Alvo | 23,00 |
| Preço Atual | 18,05 |
| Upside | 27% |
| Capitalização de Mercado (R$ bi) | 181 |
| Ações Emitidas (mi) | 10.577 |
| Free Float | 58,0% |
| Semana | +0,67% |
| Mês | +0,89% |
| Ano | -0,77% |
Análise por Bruno Benassi, CNPI 9236, Analista de Ativos da Monte Bravo Corretora, CNPJ 50.489.148/0001-00.